quinta-feira, 18 de abril de 2013

Pesca de Vadeio

Caminhar pelas águas é sentir-se verdadeiramente parte integrante do bioma que o cerca.

Esta não é uma frase de um pescador famoso nem tampouco citação de algum autor que escreva sobre pesca esportiva, apenas minha opinião sobre a forma mais prazerosa (a meu ver) de exercitar a pesca com mosca. Particularmente acho que não existe melhor definição para o que sente um mosqueiro quando está praticando a pesca de vadeio. 


Vadeio no rio Aiuruoca - MG

Dentre as diversas formas de praticar o fly fishing (caiaque, no seco, flotada, etc) o vadeio, além de ser a mais clássica, acredito que seja também a mais recompensadora. O prazer de estar pescando literalmente no mesmo ambiente que o peixe transmite ao pescador esportivo a sensação de que as dificuldades são ainda maiores. Pode não parecer à primeira vista, mas estar na água ou fora dela faz uma enorme diferença. Dentro da água, em especial em um rio, além da visão, olfato e audição mais requisitados pois tudo está acontecendo à sua volta, temos mais um sentido sendo estimulado, o tato. Vencer a correnteza, achar o equilíbrio e caminhar sobre um leito arenoso ou de pedras, acrescenta mais pontos ao desafio de atrair e fisgar seu troféu.

A pesca de vadeio, em função de onde é praticada (flats, rios de montanha, lagoas, etc) exige equipamento apropriado e diverso, proporcionando conforto e segurança ao pescador esportivo durante sua caminhada pela água. Acredito que o vadeio em rios de montanha seja a variante mais desafiadora e que requer o maior número de acessórios, pelas condições normalmente encontradas nesses rios: leito e fundo com pedras de diferentes tamanhos, trechos compostos por degraus formados pela ação da descida da água, temperatura da água geralmente baixa, correnteza acentuada em certos trechos, etc. A seguir, destaco alguns assessórios usados nesta variante, tanto por ser a que exige mais equipamentos quanto por ter sido a única que pratiquei com o fly.


Sem as botas de Vadeio seria muito difícil caminhar sobre um fundo de cascalho

Wading Boot - É um dos acessórios mais essenciais à pratica do vadeio, além de proteger a sola dos pés (sem essa proteção seria praticamente impossível caminhar sobre um fundo pedregoso), também evita escorregões por ter a sola antiderrapante (existem diversas solas que previnem, ou minimizam muito, os escorregões: feltro, hard bites, vibram sole, etc) e ajudam também a evitar torções do tornozelo (pela estrutura encorpada e cano longo). Normalmente são sobrepostos (a parte de cima do cano) pelo wader para bloquear a entrada de sedimentos. Alguns pescadores ainda fazem uso dos gravel guards (tiras de neoprene presas por elásticos ou velcro) para vedar ainda mais a entrada de pedras ou outras partículas que possam causar incômodo ao caminhar. 


Modelo Flat Bootie da SIMMS

Nos flats, praias e manges onde há formações de coral e outras estruturas mais planas (lajes de pedra, conchas, raízes, etc) normalmente usa-se um outro tipo de calçado (flat booties), mais leves, feito de neoprene com uma sola plana de borracha.

Modelo Pro Guide da Orvis

Wader - Outro equipamento muito importante, principalmente em águas frias e nos casos em que necessita-se de proteção para a pele de qualquer natureza. O modelo mais comum é um macacão (chest wader) com meias de neoprene soldadas e suspensório, os mais modernos são confeccionados com material respirável e ainda assim impermeável garantindo que o pescador se mantenha seco. Normalmente possuem bolsos impermeáveis que ajudam a carregar outros itens essenciais para quem vai caminhar pelo rio ou mar e não terá a todo tempo um ponto de apoio próximo para deixar outros equipamentos.



 
Modelos Stocking Foot Waist da Sierra e Nylo-Stretch Deluxe Hip da Ron Thompson

Existem também outras opções que protegem somente até a cintura (calças ou waist waders) e até mesmo só as pernas (perneiras ou hip waders).


Com as botas e o macacão o mosqueiro já estará apto a caminhar pelas águas, porém existem alguns outros itens que ajudarão em muito a pesca de vadeio, provendo maior conforto e praticidade ao pescador.


Folding Wading Staff da Simms

Wading Staff - Caminhar em um rio de montanha, com relevo irregular e águas rápidas exige muito mais do equilíbrio do que se possa imaginar. Nesta situação um ponto de apoio a mais faz toda a diferença. O bastão de vadeio permite que pescador mantenha a firmeza dos passos até conseguir um ponto mais tranquilo e seguro para fazer os arremessos. Além do apoio extra, ajudam também na identificação da profundidade e podem auxiliar a prevenir acidentes. Os wading staffs normalmente possuem um cabo retrátil para fixação enquanto não estão sendo usados como apoio e alguns modelos são fabricados utilizando um prático sistema de montagem/desmontagem que permite tanto sua rápida abertura quanto uma considerável redução do tamanho para fins de transporte e armazenagem.

Modelo Blackfoot River da Redington 

Colete - Complemento indispensável para um vadeio mais longo, situação que exige que o mosqueiro carregue consigo um considerável número de pequenos itens (pinça, leaders extras, caixa de moscas, tippets, nipper, flotante, etc). Alguns modelos ainda contam com bolsos impermeáveis para documentos, celulares e chaves e compartimentos maiores (normalmente nas costas) para itens mais volumosos.

Lanyard - Modelo da Morning Stars 

Ainda existem o necklaces ou lanyards, cordões com clips e prendedores retráteis que também permitem deixar à mão os acessórios considerados mais úteis pelo pescador.

Net preso ao colete por um cabo retátil 

Net - O Puçá, Passaguá, Coador ou Landing Net, para algumas espécies de peixes e/ou para quem quer garantir a foto, é um item que também não pode ser dispensado. A forma mais prática de incorporá-lo ao equipamento de vadeio é fixá-lo a um cabo retrátil preso ao colete (nas costas) ou na cintura, deixando-o ao alcance das mãos, de forma a facilitar o manejo do peixe dentro d'água.

Nunca é demais lembrar que passar algumas horas caminhando em rios de montanhas, em flats, lagoas ou praias requer planejamento prévio e monitoramento constante do clima, o tempo pode mudar repentinamente e deixar o mosqueiro exposto a adversidades como tempestades ou enxurradas. 

Grande Abraço 

terça-feira, 26 de março de 2013

Microfoam Ant

Sou fã do chamado "atado alternativo", e apesar de estar há pouco tempo em contato com o fly e com a atividade de atar, tenho notado um modesto porém contínuo crescimento do uso dos materiais sintéticos (e similares). Talvez pela escassez cada vez maior das fibras naturais e pelo consequente aumento de seu custo, pela durabilidade, ou mesmo pela tentativa (iniciativa) de popularizar essa apaixonante modalidade, não importa, fato é que não há como argumentar contra a simples porém sábia afirmação de um expert no assunto, o mestre Odimir Manoel Gaspar: "...Praticamente todos os materiais convencionais e clássicos hoje usados no atado, de certa forma um dia foram materiais alternativos...". Não sou contra o uso de materiais naturais e tradicionais, comercializados especificamente para esse fim, muito pelo contrário para alguns ainda não existem substitutos, porém inegavelmente o material alternativo tem seu valor e seu espaço.

Considero que a criatividade é uma das características mais louváveis de um atador, pesquisar novos materiais, experimentá-los no atado e desenvolver técnicas para confeccionar moscas usando materiais não destinados a esse fim requer grande poder de observação e um enorme senso de oportunidade.  Isso explica minha enorme admiração pelo mestre Betinho Oliveira, uma referência quando se fala em atado alternativo (suas adaptações são fantásticas), vislumbrar que um simples cadarço poderá formar um excelente abdômen para ninfas ou que as fibras daquele espanador dariam um ótimo streamer pode parecer óbvio, mas só se torna evidente após alguém ter tentado e obtido sucesso. Um dos atadores mais talentosos que conheço e que também é adepto do atado alternativo é o mestre Jay "Fishy" Fullum, seu livro Fly Tying with Common Household Materials, é uma fonte muito inspiradora de idéias e incentivadora da criatividade e adaptação.

Bom, mas vamos ao atado. Esta é uma mosca muito fácil de ser atada, não requer muito material, nem muitas ferramentas, até o passo a passo é simples. Também não é nenhuma novidade, é uma adaptação de uma mosca clássica, originalmente montada com dubbing natural (pêlo de coelho), amplamente usada e divulgada dado a facilidade de montagem, sua eficiência comprovada e abundância do inseto que se propõe a imitar, uma formiga alada. A diferença é a grande sacada do mestre Jay que propõe a utilização  na sua confecção de um material muito comum hoje em dia e que é comumente descartado: espuma de proteção de aparelhos eletrônicos (Isomanta ou Microfoam).



Antes de iniciar o passo a passo propriamente dito, prepare o material cortando-o em tiras finas (sugiro 3 mm de largura). Corte todo o material que possuir e armazene para uso futuro. Essas tiras pode ser usadas para inúmeras finalidades, as mais práticas e interessantes são a confecção de abdômens de moscas secas, postes para emergers e para a montagem da formiga alada.

Material Básico:
  • Anzol de haste longa reta para moscas secas (2XL tamanhos #12 a #18)
  • Tiras de Microfoam (3mm de largura)
  • Thread 6/0 (preto ou marrom)
  • Cola de cianoacrilato
  • Esmalte (preto ou marrom)
  • Pena de galo (saddle ou neck)



Material Opcional:
  • Poly Yarn
  • Pernas de borracha
  • Fio de Chumbo
  • Marcador Permanente

Passo a Passo:

1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa, faça uma cama de linha por toda a haste do anzol iniciando bem próximo ao olho, deixando livre uma distância suficiente para fazer a cabeça da mosca (aproximadamente 1 vez o tamanho do olho do anzol) até o início da curva.


2º Passe uma camada de cola por sobre a linha de atado para reforçar a base. 


3º Fixe uma tira de microfoam no final da base de thread, bem em cima da curva do anzol.


4º Enrole a tira de microfoam no anzol, cobrindo aproximadamente 40% da haste, formando uma bolinha (abdômen da formiga). Com o fio de atado dê forma ao abdômen, fixando a tira no lugar.


5º Continue a prender a tira na haste deixando uma distância suficiente para enrolar a pena do hackle. Comece uma nova bolinha para formar o tórax da formiga (essa bolinha deve ser ligeiramente menor). Tenha o cuidado de não invadir aquele espaço deixado antes do olho do anzol para formar a cabeça da mosca. Novamente cubra com o thread dando formato e fixação.


6º Enrole o fio de atado entre o olho do anzol e o tórax formando a cabeça da formiga. Corte o excesso da tira de microfoam e finalize com um nó de acabamento (caso queira tornar a mosca mais durável, passe uma fina camada de cola por cima de tudo).


7º Pinte o corpo da formiga com esmalte e espere secar.


8º Prenda o thread novamente no espaço entre o abdômen e o tórax, fixe a pena de galo e enrole dando umas quatro a cinco voltas. Corte o excesso da pena, faça um nó de finalização e coloque uma gota de cola de cianoacrilato. A formiga já está pronta!


Variações:

Além da formiga com o hackle, da direita pra esquerda vemos uma variação com a adição de duas pequenas pontas de asa de galo (tanajura), uma versão com pernas de borracha e asas de poly yarn (com uma gotinha de tinta amarela funcionando como indicador de batida) e uma outra combinação de cores.


Como trabalhar a isca:

Esta isca pode ser trabalhada de diversas maneiras dependendo da montagem. Pode simplesmente ser lançada na água e deixada ao sabor da correnteza ou vento, pode ser tracionada com pequenos recolhimentos de linha, pode ser usada como ninfa (adicionando-se um fio de chumbo como lastro por baixo do microfoam). De todas as formas é certo que provocará muitas ações que resultarão em muitas fisgadas.

Lembre de Não Esquecer:
  • Caso esteja usando a formiga como mosca seca (flutuante) e ela começar a afundar, deve-se "secá-la" com um sopro ou fazer alguns false casts para retirar a água. Alternativamente, pode-se aplicar flotante para recuperar a flutuabilidade.
  • Podem ser utilizados anzóis curvados para ninfas, desde que a haste seja suficientemente comprida para acomodar o abdômen e o tórax da mosca.
  • O microfoam aceita muito bem a pintura feita com marcador permanente, caso esteja utilizando esse material para formar o abdôme de moscas secas, essa é a melhor opção para tingí-lo.
Grande Abraço

quarta-feira, 13 de março de 2013

Associação Brasileira de Pesca com Mosca - ABPM

Uma ótima notícia pra quem, independentemente de ser mosqueiro, gosta da pesca esportiva, compreende os fundamentos associados à ela (como a importância de soltar o peixe, a preservação dos biomas e muitos outros) e ama a natureza: junto com o início do mês de março, após um trabalho primoroso de dedicação e perseverança, fomos presenteados com uma nova jornada na pesca com mosca no Brasil, a institucionalização da ABPM.

Se você acredita que ser um pescador esportista é muito mais do que simplesmente encarar a pesca como um esporte, se você entende que é preciso preservar e trabalhar em prol da preservação, se você também crê que para que a pesca com mosca se torne cada vez mais presente e forte no contexto da pesca esportiva no Brasil é fundamental participar, associe-se e divulgue.




Apoio integralmente este projeto e as idéias que estão fundamentadas em sua visão, missão e valores. Visite o site da ABPM, conheça o projeto e filie-se: 



"Juntos somos mais fortes"

Grande Abraço

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ração Artificial

Pra quem mora nos grandes centros ou em cidades que não possuem muitos locais naturais com a presença de peixes esportivos, o pesqueiro ou pesque e pague (hoje já existe também o pesque e solte ou pesque e devolva) é uma alternativa prática e confortável para treinar arremessos e porque não dizer de um ótimo divertimento considerando-se as possibilidades de boas fisgadas. E para não contar exclusivamente com a sorte, o cuidado com alguns detalhes aumentam de sobremaneira as possibilidades de se levar de volta pra casa aquela tão desejada foto. 


Lago do Parque Cão Sentado - Nova Friburgo 

Um dos componentes mais importantes é a isca (neste caso, a mosca). Muitos dos peixes presentes em pesqueiros possuem (em maior ou menor grau) parte de sua memória genética (ou instinto animal) preservada, e mesmo em cativeiro ainda são capazes de reproduzir determinados comportamentos, principalmente os relacionados à sobrevivência das espécies (tais como: acasalamento, proteção e alimentação). Podemos então considerar como premissa que as iscas a serem utilizadas nos pesqueiros deveriam ser as mesmas que utilizaríamos caso o peixe estivesse em seu ambiente natural, isso em parte é verdade. Devido à preservação da memória genética, uma mosca imitando um peixinho, um inseto ou um verme seria suficiente para atrair a atenção daquela bela tilápia, mas muitas vezes essas iscas são totalmente ignoradas imprimindo imensa frustração no mosqueiro que vê o peixe e não consegue fisgá-lo. Então que mosca utilizar em uma situação dessas?


Cardume de Tambacús - Parque Cão Sentado - Nova Friburgo

Eu admito que aos olhos dos puristas isso não poderia ser classificado como uma "mosca", mas se levarmos em consideração que a isca é a imitação artificial do alimento do peixe e ainda, partindo-se do princípio que os peixes criados em um pesqueiro se alimentam basicamente de ração, então me atrevo a dizer não só que isso é uma mosca, mas também que essa isca não deve faltar na caixa de qualquer mosqueiro que queira se aventurar por essas águas.


Ração Natural e Ração Artificial

Existem diversas receitas de ração artificial: bolinha de lã (wool ball), de pêlos (hair ball), miçangas, discos de cortiça, e talvez a mais popular e a mais utilizada: a Ração de EVA. Ainda podemos encontrar algumas variações inclusive que combinam mais de um desses materiais (EVA + Cortiça, EVA + Lã, etc). É uma "mosca" extremamente simples de ser "atada", tanto que foi a primeira que confeccionei (em meus passos iniciais utilizando material e ferramentas de atado).

Material Básico:
  • Anzol com boa abertura (utilizo o modelo 12146 da Marine Sports #4)
  • Folhas de EVA (cores próximas ao castanho)
  • Thread 6/0
  • Colas para EVA e Cianoacrilato

Material Opcional:
  • Cortiça
  • Retalhos de EVA Colorido
  • Pincel Marcador Permanente
  • Esmalte ou Tinta Acrílica

Passo a Passo:

1º Empilhe e cole 3 folhas de EVA (se preferir corte a folha em pedaços menores) usando a cola para EVA formando um sanduíche


2º Deixe secar completamente conforme indicação do fabricante da cola.


3º Com um cortador de couro e um martelo (para esse anzol utilizo um cortador de 11 mm de diâmetro), corte os discos de EVA que formarão as "bolinhas" de ração.


Os cortes podem ser feitos bem próximos uns dos outros aproveitando ao máximo o material.


4º Com um estilete ou lâmina de barbear faça um corte no disco superior da ração, este corte servirá para a fixação ao anzol.


5º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa e faça uma base de fio de atado até a curva do anzol. Faça um nó e corte o fio de atado.


6º Passe a cola de cianoacrilato sobre a base de fio e fixe a ração ao anzol, encaixando a haste no corte feito no disco superior.


7º Aguarde alguns segundos para secar e está pronto!


Variações:

As folhas de EVA normalmente tem 2 mm, alternativamente ao sanduíche podem ser usadas placas de EVA do tipo tatame/tapete (recomendo no mínimo a espessura de 5 mm).

Placas de Tatame de EVA

Placas de diferentes cores, espessuras e materiais podem ser utilizados, desde que a flutuabilidade da ração não fique comprometida

Combinações com outras cores e espessuras e com cortiça

Para locais com águas escuras, próximas da cor da ração, é aconselhável a adição de um indicador de batida (strike indicator) de modo a facilitar a localização da isca. Existem diversas formas de adicionar o indicador: com um marcador permanente, esmalte ou tinta acrílica, ou até mesmo um pequeno retalho de EVA colorido colado no lado oposto ao do anzol.

EVA amarelo agindo como indicador de batida

Como trabalhar a isca:

Basta lançar a isca na água e aguardar a batida do peixe. Caso os peixes estejam refugando ou de modo a aumentar a chance de capturas, pode-se lançar punhados de ração natural próximo à mosca (se a mosca estiver distante, pode-se lançar a ração natural usando uma vara auxiliar com bóia cevadeira ou um estilingue específico para esse fim).

Atestando a eficiência da ração com as Tilápias

e também com as Carpas


Lembre de Não Esquecer:
  • O diâmetro dos discos de EVA (cortador) deverá ser aumentado ou diminuído de acordo com o tamanho da haste do anzol. Assim como o tamanho do anzol deverá estar compatível com o tamanho e a boca do peixe. 
  • Qualquer outro anzol pode ser utilizado, dê preferência aos curtos com abertura grande (tipo Chinu).
  • Prepare um boa quantidade de rações, caso o peixe possua dentição avanjatada, após algumas capturas a ração poderá ficar bem danificada.
Grande Abraço

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A Escolha da Mosca

Este talvez seja um dos maiores desafios de um mosqueiro: acertar na escolha da isca. Essa duríssima tarefa é de tal importância que pode determinar o sucesso das suas capturas ou o fracasso de não conseguir sequer uma fisgada. O que a princípio parece ser extremamente simples, pode em certos casos se transformar em um imbróglio mais difícil de resolver do que um leader embaraçado. 

A árdua tarefa de escolher a mosca
Fonte: http://www.caseysmartt.com

É muito comum que essa pergunta se manifeste em um papo entre pescadores ou em um processo de coleta de informações sobre determinado local ou uma espécie de peixe: "Qual é a melhor isca para se usar aqui?" A melhor resposta para essa questão pode parecer um tanto direta e até mesmo grosseira, porém é a mais pura verdade: "O que o peixe está comendo!"

É fato que por mais que uma determinada espécie seja conhecida pela predileção a determinado alimento, existem condições (de várias naturezas) que podem alterar seus hábitos alimentares e transformar aquela mosca clássica  em um tremendo fiasco. A isca mais utilizada na captura do robalo é o camarão, são quase sinônimos, logo para uma pescaria de robalo basta encher a flybox com Gênesis, Crystal Shrimps, Honey Shrimps e outras imitações de camarão que as fisgadas estão garantidas, não é? Nem sempre! Em função das características locais (clima, circunstância da água, disponibilidade de alimento e outros milhões de fatores), o camarão pode simplesmente não existir ali, e caso este seja o lugar escolhido para aquela tão esperada pescaria de robalos, o resultado poderá ser bastante frustrante. Neste local caso os robalos estejam habituados a outro tipo de alimento (pequenos peixes por exemplo) as moscas mais efetivas serão streamers.

Vespas sob a ponte pênsil de um lago

A forma mais simples de se ter um ponto de partida para a escolha da mosca é a observação do local de pesca. Examinar a superfície da água identificando quais insetos estão presentes servindo de alimento aos peixes é um bom indicativo de quais padrões de moscas serão mais eficientes. Analise o espaço ao redor: vegetação, margens e até as teias de aranhas podem revelar que tipos de insetos vivem na região direcionando a escolha da isca.

Exoesqueleto indicando a presença de libélulas no local

Caso haja a confirmação da existência de ninfas, adultos ou mesmo de exoesqueletos resultantes de mudas, o uso de um padrão que se assemelhe a essa espécie tem grandes chances de produzir um bom resultado. 

Libélula adulta atada segundo o padrão criado pela GOFLY

Uma outra maneira de descobrir que alimento há em determinado local é através da coleta. De posse de uma pequena rede colhe-se amostras dos seres que habitam o rio, lago ou determinada região do mar, revelando qual o alimento mais abundante e que provavelmente resultará em mais capturas.

Fonte: Fly Tying - an Enjoyable Hobby

Além de um padrão de iscas representativo dos alimentos locais, há outros aspectos a se observar quando da escolha de uma mosca:

Cores:

Muitos peixes não tem visão muito desenvolvida, os bagres que vivem em águas turvas por exemplo tem esse como seu pior sentido. Já a truta é reconhecidamente um peixe de visão privilegiada podendo perceber detalhes que a maioria das espécies não consegue. Deve-se também ter em mente que as cores não são enxergadas pelos peixes da mesma forma que pelos humanos, nossos olhos são diferentes e mesmo entre as espécies existem variações. Porém a prática demonstra que para determinadas situações certas cores produzem melhores resultados, faça as experimentações e principalmente as anotações de quais cores funcionam melhor em quais condições.

Exemplos de cores para certas condições

Movimento:

Este também é um aspecto muito importante na tomada de decisão de qual mosca utilizar. Em determinadas situações, a vibração causada pelo material ou pelo formato da mosca se torna seu maior atrativo. Observa-se ainda que determinadas espécies mudam de hábitos em função das condições climáticas ou época do ano, e uma isca que era muito atrativa devido ao seu movimento no verão, pode se tornar totalmente ineficiente no inverno, exigindo do mosqueiro a observação constante do comportamento dos peixes e a adequação da isca às novas circunstâncias.

Tamanho:

Pode parecer óbvio que o tamanho da mosca tem que estar compatível com a dimensão do peixe, porém novamente essa não é uma regra. A adequação do tamanho do anzol e da isca na grande maioria das vezes deve mesmo respeitar uma certa proporcionalidade, mas em casos especiais como o da truta aquela velha máxima "isca grande para peixe grande" não vale. Na maioria das vezes a truta se alimenta de pequenos insetos e de suas ninfas tornando a relação dimensão da mosca x tamanho do peixe totalmente desproporcional.


Fonte: http://www.lemouching.com

Textura:

Algumas espécies de peixes são capazes de detectar a textura do alimento com a boca ou com os barbilhões, inspecionando sua rigidez ou maciez. Uma mosca com textura similar aos alimentos disponíveis aumentam as chances de sucesso.

Silhueta:

O formato da mosca, principalmente nas que flutuam, talvez seja ainda mais importante que suas cores. A impressão que um inseto descreve na superfície da água é facilmente reconhecida pelos peixes que dele se alimentam e o possibilitam diferenciar uma simples folha de uma formiga. Algumas moscas se assemelham muito aos modelos naturais tornando bastante difícil para o peixe distinguir qual é o verdadeiro e qual é a imitação.

Scud à esquerda o verdadeiro - à direita a artificial

Por fim tenha em mente ainda que existem outros fatores que podem influenciar a escolha da mosca como por exemplo: sazonalidade da oferta de alimentos (eventos de revoadas de tanajuras e cupins), períodos de reprodução/cuidados com a cria, condições da água e muitos outros. O importante é o mosqueiro estar sempre atento, investir tempo na observação e pesquisa do ambiente onde pretende praticar a pesca, anotar as variações de comportamento dos peixes e do ambiente que os cerca de forma a garantir uma diversidade que padrões que cubram eventuais situações fora do esperado. Nunca é demais lembrar que a intuição do pescador também tem grande peso na escolha da mosca, a confiança na seleção da isca se traduz em disciplina, aplicação e persistência, potencializando de sobremaneira os resultados.

Grande Abraço

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Craft Fur Minnow

A principal função de uma isca artificial é imitar de alguma forma o alimento que o peixe, alvo de desejo do pescador, está normalmente acostumado a encontrar no ambiente em que vive. A semelhança da isca artificial com um inseto, um peixinho, uma fruta, etc, pode estar relacionada ao formato, textura, cor e outros diversos aspectos, mas principalmente está associada ao movimento. As vibrações que a isca artificial transmite ao peixe, ou a visão de seus movimentos, sejam eles causados pelo material e/ou pelo trabalho que o pescador aplica à isca, são na maioria das vezes a forma mais efetiva de atraí-los.

Com o Fly não é diferente, as moscas são confeccionadas para despertar a curiosidade ou a agressividade dos peixes, tornando-as na maioria das vezes irresistíveis a seus instintos naturais de alimentação e territorialismo. Uma das iscas que mais fielmente representa os movimentos, principalmente de pequenos peixes, é o Streamer. Os Streamers são atados de forma a permitir que o material com o qual é confeccionado tenha livre movimento e "pulse"  ou "tremule" (movimentando-se de forma similar a um polvo, uma medusa e peixes alongados de formato fusiforme), para tanto, as fibras do material utilizado necessariamente deverão ser longas e flexíveis.

O simples, versátil e eficiente Craft Fur Minnow

É sempre bom ter opções de cores

Esse Streamer foi uma das primeiras iscas que atei, é uma mosca bem simples de ser confeccionada, fácil de ser arremessada e muito eficiente para a captura de várias espécies de água doce ou salgada. Nesta montagem utilizei o Craft Fur pois é uma fibra de bom comprimento e muito maleável, mesmo se a isca ficar mais comprida do que o esperado não irá atrapalhar a fisgada, o peixe conseguirá facilmente abocanhar a isca inteira. Além disso, apesar de ser uma fibra longa, o Craft Fur desembaraça com extrema facilidade, se a mosca ficar embolada depois de uma captura, é bem simples fazê-la voltar ao formato original. Mas chega de papo, vamos à receita:

Material Básico:
  • Anzol Gamakatsu Octopus #8
  • Craft Fur (2 cores)
  • Angel Hair
  • Thread 6/0
  • Cola Cianoacrilato
Material Opcional:
  • Olhos (prismáticos, 3D, etc)
  • Penas Marabou (Cor Vermelha)
  • Pincel Marcador Permanente
  • Resina Epóxi
Passo a Passo:

1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa, passe cola na haste e faça uma base de fio de atado até a curva do anzol (onde será fixado o primeiro tufo de fibras). Passe outra camada de cola por cima do thread.


2º Pegue um tufo de Craft Fur de uma das cores (normalmente a mais clara fica na parte de baixo da isca), gire o anzol e o posicione com a haste virada para baixo (essa é a vantagem de se possuir uma morsa giratória) e fixe o tufo na parte de baixo do anzol bem próximo à curva. Vire o anzol novamente para cima, reparta o tufo ao meio e penteie para trás e para cima usando a escova de velcro (não use muito material, como essa operação se repetirá mais vezes, a isca ganhará volume aos poucos).


3º Pegue outro tufo de Craft Fur (a cor mais escura) e fixe na parte de cima do anzol, penteie novamente. Repita os passos 2 e 3 atando os tufos seguidamente em direção ao olho do anzol até que sobre somente uma pequena parte da haste descoberta.



4º Com a isca posicionada de lado (novamente se percebe aqui a importância de uma morsa giratória), fixe alguns fios de Angel Hair em cada uma das laterais da isca (dobre o fio do Angel Hair envolvendo o thread, isso facilita em muito a sua fixação), tente posicioná-los sobre o encontro das 2 cores das fibras formando a linha lateral. Corte o excesso para que tenha no máximo o comprimento da mosca.



5º No espaço descoberto da haste, faça um "cone" de linha de atado, ele  garantirá a hidrodinâmica da mosca, facilitando o seu nado. Esse cone pode ser feito com um fio de atado de cor diferente, por exemplo vermelho para tornar a isca mais atrativa. Faça um nó de finalização e aplique um pouco de cola sobre o cone, pra manter tudo firme.



Variação com thread vermelho 

Neste ponto a mosca já está pronta, pode ser utilizada normalmente e já será eficiente. Entretanto podemos incrementá-la com mais alguns detalhes, e adicionar um pouco mais de realismo e estética.


Nesta etapa a mosca já pode ser usada 

Variações:

Com algumas gotas de cola, fixe um olho de cada lado da isca, imediatamente atrás do cone de thread, pressione dando um formato achatado à cabeça da mosca.



Pode-se também adicionar algumas listras verticais, manchas ou pintas com um marcador permanente, imitando a coloração de certas espécies de peixes.


Temos ainda a opção de atar um último tufo de Marabou/Craft Fur (ou outra fibra) vermelho, na parte de baixo do anzol, imitando as guelras do peixe. Esse tufo deverá ser atado antes do passo 5 e deve ser bem mais curto que os demais, não devendo ultrapassar o gap (abertura) do anzol, não o penteie para cima. 


E finalmente pode-se aplicar uma fina camada de epóxi sobre a cabeça da isca, cobrindo desde o início do cone até a parte atrás dos olhos.


Como trabalhar a isca:

Essa é uma isca muito simples de se trabalhar, o movimento deve ser feito puxando-se a linha alternadamente com alguns segundos de parada, de forma a imprimir à mosca uma ação do tipo avance/pare. Deve-se variar a velocidade e a quantidade de linha puxada (deslocamento) em função da atividade dos peixes, quando estiverem mais ativos, pode-se puxar de forma mais vigorosa. Caso esteja mais letárgicos ou refugando, trabalhe de modo lento.

Comprovando a eficiência da mosca com um Black Bass

Lembre de Não Esquecer:
  • O tamanho do anzol deverá sempre ser compatível com o tamanho e a boca do peixe.
  • Qualquer outra fibra longa pode ser utilizada (inclusive combinando-se fibras diferentes), as cores ficam por conta do gosto do atador e das espécies que habitam o ambiente e servem de alimento ao peixe (que se deseja fisgar).
  • Penteie as fibras antes de começar a utilizá-las, um pente comum resolve a questão.
  • Assim como as fibras, pode ser usado qualquer outro material para dar brilho (Flashabou, Lateral Scale, etc), procure usar uma cor que combine com as cores das fibras.
  • Apesar de não haver necessidade, as fibras podem ser aparadas dando o formato desejado pelo atador à mosca.
Grande Abraço