quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Gafanhotos: Praga ou Dádiva Divina?

"...E Moisés estendeu a vara sobre o Egito, e o Senhor fez soprar sobre a terra um vento oriental durante todo aquele dia e toda aquela noite. Pela manhã, o vento havia trazido os gafanhotos, os quais invadiram todo o Egito e desceram em grande número sobre toda a sua extensão...", assim descreve o livro do Êxodo no capítulo 10. Esse trecho da Bíblia é parte da narrativa da 8ª praga enviada por Deus, através de Moisés, ao Egito para que Israel fosse libertado e para que a unicidade de Deus fosse reconhecida. A 8ª praga foi uma enorme nuvem de gafanhotos que devastou o que ainda havia sobrado após o envio da 7ª praga, uma forte chuva de granizo.


Exemplar de Anacridium aegyptium - Gafanhoto do Egito
Fonte: Wikipedia


Até hoje em dia, os gafanhotos são considerados pragas pelos agricultores e em muitos locais eles ainda representam uma ameaça a algumas importantes culturas como milho, arroz e até pastos. Mas para muitos mosqueiros, eles são uma dádiva divina, pois sua distribuição é bastante abrangente, estão quase sempre presentes nas proximidades dos cursos d'água e fazem parte da dieta alimentar da maioria dos peixes insetívoros, pois com relativa freqüência caem na água sempre que a aterrissagem é mal calculada após um salto ou voo, sendo assim um padrão que não pode faltar nas caixas de iscas de quem pratica a pesca com mosca. 

Diferentemente dos insetos que vivem parte de sua vida sob a água (como as mayflies, caddis e stoneflies), os gafanhotos nascem e vivem na terra, por isso, juntamente com besouros e formigas são chamados pelos atadores de terrestriais. São insetos hemimetábolos, isto é, realizam metamorfose incompleta (ou parcial) e se desenvolvem de forma indireta. Do ovo, eclode uma ninfa, que possui características físicas muito próximas às do inseto adulto e que passará por algumas fases de alterações estruturais (asas, pernas, cor, etc) até se tornar um imago (atingir o estágio adulto).


Ninfa de gafanhoto do gênero Schistocerca (nota-se que as asas ainda não estão completas)

O principal elemento para a montagem dessa mosca é o corpo feito de EVA ou qualquer outra espuma de boa densidade que não encharque (esta é uma isca que deve flutuar). Um pedaço retangular de espuma afinado em uma das extremidades formará a cauda e na outra extremidade deverá ser cortado em ângulo para formar a cabeça. Com o thread tensionado em pontos específicos, além de fixar o corpo, confere-se formato, segmentando-o em abdômen, tórax e cabeça. 


Corte afunilado em uma das extremidades (cauda) e em ângulo na outra (cabeça)

Um pequeno talho na parte inferior garante o encaixe da haste do anzol

Um bloco com espessura suficiente (dependendo do tamanho do anzol) produzirá os pequenos retângulos que poderão ser cortados diretamente, ou caso não se disponha de um bloco de dimensões adequadas, pode-se montar um sanduíche com folhas de EVA, até que se alcance as medidas necessárias, gerando blocos com combinações de cores bastante interessantes, como na seqüência abaixo:



Folha de EVA de 2mm com excelente coloração para montagem de gafanhotos




Pequenos pedaços cortados com o estilete e unidos com cola própria pra EVA


Sanduíche pronto (um peso ajudará a unir as folhas de modo uniforme)

Depois é só cortar pequenos retângulos com o auxílio de uma lâmina afiada

A colagem das folhas possibilita uma grande combinações de cores


Material Básico:
  • Anzol Tiemco 5212 tamanhos #6 a #12
  • Thread 6/0 Cream
  • Blocos de EVA (em torno de 1,5 vezes o comprimento da haste do anzol, altura igual a do gap e metade dessa medida para a largura)
  • Cola de cianoacrilato

Material Opcional:
  • Sili legs (ou perninhas de borracha)
  • Penas
  • Fita adesiva transparente
  • Microfoam (Isomanta)
  • Marcador Permanente
  • Elk Hair ou Deer Hair

Passo a Passo:

1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa, enrole o fio de atado por toda a haste fazendo uma base de fixação para o corpo de EVA, posicione o fio de atado na curva do anzol, aplique uma gota de cola e espere secar.


2º Coloque o corpo de EVA (encaixando a haste no corte feito em sua base), tomando cuidado para que a parte da frente cortada em ângulo fique faceada com o olho do anzol, enrole o thread com uma volta frouxa para fixar o corpo da mosca e em seguida dê mais duas a três voltas aplicando tensão (com moderação) no fio de atado para formar o primeiro segmento, o abdômen do gafanhoto.


3º Avance com o fio de atado na direção do olho do anzol, repetindo o processo para formar o segundo segmento do corpo do gafanhoto, o tórax.


4º Neste ponto pode-se fixar as pernas, prenda um pedaço de sili leg cada lado, deixando a parte da frente ligeiramente mais comprida que a cabeça da mosca e a parte de trás também ligeiramente maior que a cauda.


5º Avance mais uma vez em direção ao olho do anzol e repita a operação para formar o terceiro segmento, a cabeça do gafanhoto. 


A mosca está praticamente pronta, basta finalizar a amarração com um nó de acabamento e colocar uma gota de cola para que não se desfaça. Pode-se virar a isca de cabeça para baixo e aplicar também algumas gotas de cola para fixar bem o corpo na haste do anzol.

Variações:

Uma mosca do tipo terrestrial deve flutuar após cair na água e permanecer flutuando por conta da tensão superficial, sendo assim, alguns detalhes que a tornariam realista (fisicamente mais fiel ao inseto) podem ser suprimidos. Contudo, apesar de ser minimalista, pode-se acrescentar mais alguns detalhes seja para aumentar a confiança do mosqueiro, seja para condições de águas rasas e claras, nas quais o peixe não enxergará meramente a deformação na superfície da água e a silhueta da mosca.


Versão com olhos pintados com marcador permanente e asas de Elk Hair 

É possível acrescentar olhos ao gafanhoto, eles podem ser pintados com tinta (esmalte) e um simples palito de fósforos ou de forma facilitada com uma ferramenta muito usada em artesanato chamada pinta bolinhas, ou simplesmente utilizando-se um marcador permanente. Se desejado, pode-se incrementar com brilho (colando olhos 3D ou holográficos) ou ruído, colando olhos de boneca (basicamente uma semi-esfera oca de plástico com um pequeno disco ou uma bolinha em seu interior que se movimenta livremente), à mosca para que essa chame ainda mais a atenção dos peixes. 

As asas pode ser feitas com tiras de Microfoam e pintadas com marcador permanente

Também no sentido de tornar a mosca mais atrativa, há a opção de acrescentar asas. Existem diversos materiais que podem ser utilizados nas asas como por exemplo Microfoam ou Isomanta (aquela manta de espuma utilizada para proteger aparelhos eletrônicos), penas, pelos, tecido tipo organza (tecido fino e leve cuja trama se assemelha às estruturas das asas de alguns insetos) e muitos outros que possuam alguma semelhança com as frágeis asas do gafanhoto.

Versão com asas de Microfoam pintadas de verde e de marrom

Outra forma fácil de fazer as asas: cole uma pena em um pedaço de fita adesiva transparente, com uma tesoura, corte a partir do centro para que fique com a largura um pouco maior que o corpo do gafanhoto, pode-se fazer um pequeno corte em V na parte de trás.

Pena colada em fita adesiva (esquerda) e já cortada no formato da asa (direita)

Versão com asas de pena

Como trabalhar a isca:

Esta mosca pode ser trabalhada de diversas maneiras, o mais comum é lançá-la na água e deixá-la ao sabor da correnteza ou vento, pode-se tracionar com pequenos recolhimentos de linha para que deslize sobre a água (skating).

Lembre de Não Esquecer:
  • Não tensione o fio de atado de forma demasiada, pois a tensão exagerada poderá seccionar o EVA.
  • Ao encaixar o corpo de EVA na haste do anzol, não o afunde demais, é preciso deixar o gap livre para não interferir na fisgada.
  • Procure verificar que espécies ocorrem onde você irá pescar e adeque o comprimento do corpo e as cores em função dos insetos do local.

Grande Abraço

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Entomologia Aplicada

Um dos aspectos mais cativantes do fly fishing é a possibilidade de expansão do conhecimento, tanto do novo, quanto do aprofundamento de diversos assuntos relacionados direta ou indiretamente à pesca com mosca. Uma dessas matérias em particular, me desperta o interesse desde criança, e nunca poderia imaginar que minha paixão pela pesca, legitimamente retratada pelo fly, pudesse resgatar essa outra antiga paixão. Agora como aprendiz de mosqueiro tive a recompensadora oportunidade de retomar a obtenção de mais conhecimento nesse campo tão fascinante: a entomologia (estudo dos insetos).

A presença da Donzelinha (Damselfly) adulta, indica provável ocorrência de ninfas

Esse estudo, não tem como objetivo o conhecimento científico e nem o aprofundamento acadêmico que um estudante de biologia necessita, mas é de grande importância para o mosqueiro (atador e/ou pescador) que deseja ser mais eficiente tanto na confecção de suas criações, quanto em suas capturas. Identificar que tipo de inseto está ocorrendo em um determinado local, em um momento específico e escolher uma mosca que o imite, pode deixar bem evidente a diferença entre um pescador que está fazendo capturas e outro que não está. Ter o conhecimento que as ninfas não nadam rio acima pode explicar a "sorte" de um mosqueiro que está tendo boas ações de peixes e capturas, derivando a mesma mosca que um outro pescador está puxando com pequenos recolhimentos rio acima, sem que nenhum peixe demonstre interesse.


Identificar que tipo de alimentação existe no local é fundamental para decidir que mosca usar

Sob o aspecto do atado, consultar livros com fotos ou desenhos de insetos, bem como fazer um esboço antes de começar a atar, ajuda a observar alguns pormenores importantes, ainda mais se o foco for produzir uma imitação mais realista. Em uma primeira análise, pode parecer um exagero atar uma mosca realista, "perdendo tempo" com detalhes que o peixe não conseguiria perceber, mas dependendo da espécie e do local onde se pretende pescar, uma minúcia aparentemente desprezível pode tornar a mosca desinteressante aos olhos do peixe. Se estivermos pescando com condições de água não muito claras, espécies que não possuem visão muito desenvolvida, uma Woolly Bugger pode perfeitamente se passar por uma ninfa de donzelinha (damselfly). Ao passo que se estivermos em águas transparentes, tentando capturar uma espécie de peixe com grandes olhos adaptados para caçar, a falta de pernas ou diferenças na proporcionalidade da mosca em comparação ao inseto real, pode comprometer o sucesso da pescaria.

Elaborar um esboço do inseto, figuras e fotos ajudam bastante nos detalhes antes de atar 

Outro cuidado que devemos levar em consideração quando atamos (ou escolhemos uma mosca da caixa) é imaginar a mosca na água sob a ótica do peixe. Quando observamos essa ninfa capturada em um rio fora da água, podemos notar que a curvatura do abdômen está voltada para baixo (figura da esquerda), mas quando a vemos embaixo da água (figura da direita), percebemos que sua postura natural é com o abdômen curvado para cima. Essa diferença, influencia na escolha do material, nesse caso do anzol, e poderá eventualmente impactar em suas chances de capturar o peixe.

 
A mesma ninfa em duas situações diferentes: à esquerda no seco e à direita dentro da água 

A mosca que apresento a seguir não é propriamente uma criação, é na verdade a compilação de várias receitas e alguns experimentos com materiais visando principalmente o aspecto funcional (textura, movimento, razão de afundamento, etc) e claro, o visual (cor, tamanho, formato, etc), características que considero essenciais em uma isca. A intenção foi representar de forma um pouco mais realista, a ninfa de donzelinha mostrada acima, para tanto a montagem se deu assim:

Base - Anzol TMC 200R #14, fio de atado #8 marrom e 10 voltas de fio de chumbo 0,20.
Olhos - De corrente.
Cauda - Pêlo de Coelho.
Abdomên - Fibras de pena de Ganso.
Tórax - Dubbing  de Pêlo de Coelho.
Pernas - Fibras de Pena de Faisão.
Cabeça - Dubbing sintético amarelo palha.


Visão lateral e superior da ninfa de donzelinha (damselfly)

O resultado é uma mosca visualmente mais parecida com a ninfa do inseto real do que uma Woolly Bugger (que a representaria muito bem em águas mais rápidas), mas que ainda se abstrai de alguns detalhes. A idéia é que ao ser apresentada ao peixe em águas mais tranquilas (poços de rios, lagos e trechos sem correnteza) onde este tem mais chances de distinguir um inseto real de uma imitação, as diferenças não sejam tão perceptíveis. A decisão de montar uma mosca impressionista (mais abstrata) ou uma mosca mais realista (mais fiel ao inseto) é meramente pessoal, particularmente prefiro optar pela segunda opção, pois entendo que dessa forma estarei aumentando as chances de capturas tanto em águas mais tranquilas quanto em águas rápidas.

O importante é sempre procurar conhecer o ambiente onde irá pescar, observar tanto o local quanto seu entorno, como os insetos se comportam na água e nas proximidades, investigar como se movimentam, seu formato, cores, que espécies são mais atrativas naquele local, enfim estudar as formas de vida locais e usar esse conhecimento para aprimorar a confecção das moscas e tornar sua pescaria mais efetiva.

Grande Abraço

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Na dúvida, Elk Hair Caddis

Todos sabemos que o melhor ponto de partida para a eleger a mosca mais adequada às condições de pesca que se apresentam ao mosqueiro é a observação do local e do que está acontecendo à sua volta. Ler as águas e através de uma atenta observação, tentar identificar que tipo de alimento os peixes estão consumindo. Mas há momentos em que não estão ocorrendo eclosões na superfície, nos arredores do rio ou lago não encontram-se vestígios de insetos aquáticos (como exoesqueletos ou adultos presos em teias de aranha), em suma, não temos nenhum indicativo de quais insetos estão presentes no local. 

 A Caddis ou Sedge 
Fonte: http://www.fcps.edu

Nessas horas em que só a dúvida ecoa pela mente do mosqueiro e a incerteza da escolha da mosca recai sobre ele, o que fazer? Fácil, opte por uma imitação de caddis! Por quê? Eu explico: 

As caddis ou sedges (primos das mariposas e borboletas) são a espécie mais comum de insetos aquáticos encontrados em lagos e rios de todo o mundo e também um dos alimentos mais importantes para os peixes insetívoros. Além desse fato, em comparação com outras espécies de insetos aquáticos (mayflies, stoneflies e midges) a duração de sua fase adulta é muito maior. As caddis vivem em média entre duas semanas e dois meses, contra menos de uma semana das mayflies, uma a três semanas das stoneflies e cinco a dez dias das midges. Esse fato torna as caddis adultas disponíveis por muito mais tempo como alimento para os peixes, logo, se você pretende pescar com mosca seca e não tem idéia de que mosca escolher, opte pela Elk Hair Caddis! 

Elk Hair Caddis, a mosca certa para os momentos incertos

Em se tratando de moscas secas, a Elk Hair Caddis é um dos padrões mais populares e comprovados de todos os tempos. Criado por Al Troth, esse pattern imita tanto um inseto adulto que pousa na água para depositar seus ovos, como um emerger (indivíduo recém emergido advindo da fase de pupa). É relativamente simples de atar e não requer muita prática do atador, bastando que o mesmo esteja atento à proporcionalidade, aspecto importante quando se trata de moscas secas. Depois de todos esses argumentos, não há como não ter algumas na caixa. Então, mãos à obra! 

Material Básico:
  • Anzol Tiemco 100 #14
  • Thread 6/0 Rusty Brown
  • Fio de Cobre (Ultra Wire Copper)
  • Dubbing Tan (Podem ser usadas diversas cores)
  • Brown Saddle Hackle
  • Elk Hair (Natural ou Bleached)



Material Opcional:
  • Penas CDC
  • Pena de Pavão Albino
  • Deer Hair

Passo a Passo:

1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa, reserve um espaço aproximado de 2 vezes o olho do anzol (a partir do olho do anzol) e enrole o fio de atado até o final da parte reta da haste, imediatamente antes da curva. Retorne com o fio pra frente parando onde iniciou.


2º Corte um pedaço de fio de cobre (do tamanho suficiente para enrolar sobre a haste) e prenda-o logo no início da base de fio feita no passo anterior.


3º Cubra o fio de cobre com o thread, até à acurva do anzol, por cima da base feita no passo 1. Deixe o fio parado exatamente nessa posição.


4º Pegue um pequeno punhado de dubbing para formar o corpo da mosca, a quantidade deverá ser suficiente para formar um corpo delgado, porém com formato definido.


5º Aplique o dubing ao fio de atado torcendo o material com os dedos indicador e polegar, distribuindo-o ao longo do thread de maneira uniforme. Se preferir passe uma fina camada de cera própria para atado ou cera de abelha no thread pra ajudar a fixar o material.


6º Enrole o material na haste do anzol, cuidando para não exceder os limites estabelecidos pela base de fio de atado no passo 1. Aplique um número menor de voltas do material nas extremidades moldando o corpo no formato de um grão de arroz.


7º Escolha uma pena saddle para fazer o hackle que possua fibras com comprimento aproximado de uma vez e meia o gap do anzol. Prenda a pena pela extremidade inferior, cortando algumas fibras para facilitar a amarração.


8º A pena deverá ser fixada tomando-se o cuidado de manter sua concavidade voltada para o corpo da mosca (para baixo). Prenda a ponta da pena com poucas voltas do thread, posicionando-o imediatamente a frente do dubbing.


9º Enrole a pena de forma esparsada, no sentido horário, indo em direção à curva do anzol, dando 5 ou 6 voltas em torno da haste, até o ponto onde termina o dubbing. Cuide para que a concavidade da pena permaneça sempre voltada para o corpo da mosca. Um hackle plier (pinça) ajuda bastante a mater o controle da pena.


10º Segure firmemente a pena e enrole o fio de cobre dando uma volta reta, no sentido anti-horário por cima da ponta da pena para fixá-la. A partir daí, enrole o ultra wire, ainda no sentido anti-horário, de forma esparsada, indo na direção do olho do anzol. Tente manter as voltas do fio de cobre entre as voltas da pena, cuidando para que as fibras não fiquem presas sob o fio. Uma boa dica pra evitar prender as fibras sob o fio é usar uma pinça (hackle plier) e movimentar o fio pra frente e para trás a cada volta. Termine com o fio de cobre pra cima, prenda-o com o thread e corte os excessos da pena e do ultra wire bem junto à haste.


11º Corte uma pequena quantidade de Elk Hair (umas 15 fibras são suficientes). Use um pente ou mesmo os dedos para limpar as fibras, removendo os pêlos internos (under fur).


12º Depois de alinhar as pontas com um hair stacker, corte a outra extremidade, em seção reta, deixando o tamanho das fibras ligeiramente maior que tamanho do anzol (do olho até a curva). 


13º Coloque as fibras em cima da haste, posicionando a extremidade cortada exatamente na direção do olho do anzol.


14º Prenda as fibras com duas voltas do fio de atado sem apertar. Faça a primeira volta bem próxima ao hackle e deixe somente a tensão do bobbin pendurado atuar sobre o fio. A segunda volta deverá ser feita deslocando-se o fio no sentido do olho do anzol, novamente, somente o peso do bobin deverá manter o fio tensionado.


15º Continue deslocando o thread em direção ao olho do anzol e faça a terceira volta, quando essa estiver completa aplique tensão ao fio e depois mais duas voltas apertando bem. Essas voltas tensionadas farão com que as fibras se arrepiem um pouco, principalmente a parte que ficou em cima do olho do anzol, formando a cabeça da mosca.


16º Faça o nó de acabamento com o whip finisher ou com uma ferramenta de half hitch.


17º Corte o excesso do thread e aplique uma gotícula de head cement para travar o nó, cuidando para não atingir as fibras.


Variações:

As variantes do pattern procuram seguir a silhueta da mosca, basicamente mantém-se o corpo e a asa, substituindo-se o material, como nessa minúscula versão atada em anzol #20, cujo corpo foi formado por uma pena de pavão albino e o Elk Hair foi substituído por CDC na montagem da asa.

Variante em CDC usada com sucesso na pesca dos lambaris

Outra variante muito popular é a CDC Deer Hair Caddis, que utiliza penas de CDC para formar o corpo da mosca, um delgado hackle também em CDC, além de usar Deer Hair em substituição ao Elk Hair para fazer a asa.

Como trabalhar a isca:

Em se tratando de uma mosca seca, recomenda-se aplicar um pouco de flotante (próprio para moscas secas ou uma pequena quantidade de vaselina em pasta) no corpo da mosca de modo a evitar que ela fique encharcada, antes de colocá-la na água. Caso o corpo seja formado por CDC não há necessidade de flotante. Basicamente trabalha-se esta mosca de duas formas: deixando-a flutuar livremente ao sabor da correnteza (dead drift) ou impondo-lhe recolhimentos curtos fazendo com que a mosca deslize sobre a superfície da água por pequenas distâncias como se estivesse fugindo.

Lembre de Não Esquecer:
  • Não tensione o fio de atado nas primeiras voltas quando estiver prendendo o Elk Hair, a tensão aplicada sem que hajam algumas voltas fixando o material irá arrepiar muito as fibras transformando-o em uma bola.
  • O fio de cobre não adicionará lastro suficiente para que a mosca afunde, a quantidade desse material é mínima, sua função é tornar o hackle mais resistente (especialmente para espécies de peixes com dentição avançada) e fornecer um discreto brilho à mosca. Caso não queira colocá-lo, o ultra wire pode ser substituído por um pedaço de fio de atado.
  • Não exagere na quantidade de fibras de Elk Hair, muitos fios poderão deixar a mosca desequilibrada e sua apresentação ao peixe ficará prejudicada.

Grande Abraço

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Espetacular Woolly Bugger

E se você só pudesse levar uma isca pra pescar, qual isca seria?

Com relativa freqüência, seja em rodas de conversa, fóruns ou em qualquer outra reunião de pescadores essa pergunta é trazida a foco. Surgem então inúmeras explicações (algumas fortemente sustentadas por argumentos científicos), outras pela grande experiência e empirismo dos debatentes para defender as suas escolhas. Na pesca com mosca não é diferente, mas acho que essa pergunta, em se tratando do fly, deveria ser tênuamente modificada para:

E se você só pudesse atar uma mosca pra pescar, qual pattern seria?

É claro que não existe isca tão perfeita que possa ser usada pra pescar desde pequenos lambaris até enormes dourados, mesmo porque o tamanho do anzol não seria adequado, o conjunto (vara/carretilha) não se adaptaria a todas as situações, etc. Portanto quando cito esta mosca, estou me referindo à receita original e suas variantes. Ah, sim... respondendo à pergunta, sem nenhum resquício de dúvidas, com toda minha convicção digo: Woolly Bugger.

A Espetacular Woolly Bugger

Essa é provavelmente a mosca (streamer ou ninfa como queiram classificá-la) mais conhecida e utilizada em todo o mundo. Não só por sua eficiência comprovada (tanto em água doce quanto em água salgada), mas também por ser versátil a ponto de imitar inúmeras espécies de animais desde sanguessugas, vermes, lagostins, girinos, ninfas de libélulas, pequenos peixes e uma enorme variedade de outros seres. Devido a sua popularidade e versatilidade aliada à simplicidade da montagem, é utilizada em diversas situações e para inúmeras finalidades, quase sempre para cada condição de pesca que o mosqueiro encontra, uma de suas incontáveis variações (receitas) se aplica muito bem. 

Neste passo a passo tentarei reproduzir a receita clássica (se é que existe uma) e apresentar algumas variações que julgo interessantes. Vamos a ela!

Material Básico:
  • Anzol Tiemco 5262 #10
  • Penas Marabou Olive
  • Chenille Olive
  • Penas Saddle Olive
  • Lead Wire
  • Ultra Wire
  • Thread 6/0 Olive
    Material Opcional:
    • Bead Head ou Cone Head
    • Rubber Legs
    • Dubbing
    • Brilho (Flashabou, Angel Hair, Krystal Flash, etc)
      Passo a Passo:

      1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa e enrole de 10 a 14 voltas de fio de chumbo (lead wire). Comprima as voltas e posicione a "mola" que se formou no centro da haste para que a isca afunde de modo equilibrado, não deixe a "mola" muito para frente ou muito pra trás.


      2º Cubra o lead wire com o fio de atado passando por entre as voltas, na frente e atrás. Leve o thread até o final da haste onde se inicia a curva do anzol.  


      3º Separe um tufo de penas de marabou, para um controle mais fácil das plumas que são extremamente flexíveis, mergulhe o tufo em um copo d'água, com as fibras molhadas é muito mais fácil lidar com o marabou.


      4º A proporção da cauda deverá ter como base o mesmo tamanho da haste do anzol. Poderá ser ligeiramente maior ou menor, mas via de regra, utilize o mesmo tamanho da haste.


      5º Envolva o tufo de penas de marabou com algumas voltas do fio de atado. Corte o excesso.


      6º Enrole o fio de atado por sobre o excedente das fibras das penas de marabou e retorne com o thread para próximo à curva do anzol. 


      7º Ate o fio de cobre cobrindo com o thread e deixando bem firme. O fio de cobre será usado no final do atado para reforçar o hackle. 


      8º Retire as fibras da ponta do chenille, expondo sua "alma". Dessa forma é mais fácil sua fixação.


      9º Ate o chenille amarrando o cordão central com algumas voltas do thread. 


      10º Enrole o fio de atado por todo o corpo da mosca, até aproximadamente um olho de distância do olho do anzol. 


      11º Enrole o chenille por toda a haste do anzol, uma volta bem próxima à outra até chegar ao mesmo ponto do passo anterior (um olho de distância do olho do anzol). Fixe com o fio de atado e corte o excesso.


      12º Escolha uma pena de saddle que possua fibras com o comprimento aproximado de 2 vezes o tamanho do gap do anzol. Retire algumas fibras de um dos lados da pena para facilitar sua fixação. Posicione a pena de tal forma que a parte côncava fique virada para você.


      13º Fixe a pena enrolando o fio de atado sobre  a raque (parte central) até que as fibras estejam coladas ao chenille.


      14º Enrole a pena de saddle no sentido horário, de forma espiralada, deixando um espaçamento de alguns milímetros entre cada volta. Use um hackle plier para ter um controle melhor da pena.


      15º Segure a ponta da pena e comece a enrolar o fio de cobre por cima do hackle só que dessa vez no sentido anti-horário. Tente guiar o fio por entre os intervalos deixados pela pena. A cada volta, movimente o ultra wire pra frente e para trás, isso ajudará a evitar que as fibras da pena de saddle fiquem presas sob o fio de cobre.


      16º Leve o fio de cobre até o olho do anzol, fixe com o thread e corte o excedente.


      17º Faça a cabeça da mosca cobrindo aquele segmento que havia ficado separado (do tamanho de um olho de anzol) com algumas voltas do fio de atado em formato de um cone. Finalize com um nó de acabamento.


      18º Aplique uma gota de head cement para travar o nó de acabamento e finalizar a mosca.

       

      Variações:

      Existem incontáveis variantes da Woolly Bugger, algumas modificam pouco a receita original e acrescentam ou alteram pequenos detalhes, como é o caso da Big Eyed Bugger, variante que acrescenta algumas fibras de brilho na cauda e grandes olhos na cabeça.


      Big Eyed Bugger variação criada por Oliver Edward


      Já algumas outras variantes modificam de tal forma a receita original que a primeira vista podemos imaginar ser outra mosca, mas se analisarmos cuidadosamente podemos encontrar nessas variantes os mesmos elementos básicos da receita original. A Autumn Splendor, criada por Tim Heng, além de acrescentar o cone head e o brilho na cauda, apresenta rubber legs como mais um atrativo e como forma de despertar mais interesse nos peixes.

      Autumn Splendor, criação de Tim Heng, na leitura de Charlie Craven

      Dennis Collier modificou a receita original trocando o chenille por ice dub na cor light yellow, também acrescentou um cone head e um hackle extra logo atrás (concentrado na cabeça), além do hackle distribuído pelo corpo da mosca.

      Vanilla Ice Bugger, variante de Dennis Collier, atada por Charlie Craven

      Essa não é propriamente uma variante da Woolly Bugger, mas se assemelha em muito ao seu pattern, trata-se de uma variante de outra mosca, a Blood Worm, que uso com sucesso na pesca de lambaris.

      Blood Worms usadas com sucesso na pesca dos pequenos valentes 

      Como trabalhar a isca:

      Devido ao grande número de variantes, com mais ou menos lastro, cone heads e rubber legs, o trabalho dessa mosca pode mudar um pouco em função das modificações que lhes foram aplicadas. Em se tratando da receita original é uma mosca que afunda com relativa velocidade, logo via de regra deve-se aguardar alguns segundos após o arremesso para então trabalhar a isca de duas formas básicas: com pequenos toques intercalados por breves pausas e através de um recolhimento lento e contínuo.

      Lembre de Não Esquecer:
      • O tempo de afundamento da mosca vai depender da profundidade que o peixe está. Varie a contagem dos segundos após o arremesso até encontrar o tempo ideal.
      • Antes de fazer o primeiro arremesso, deixe a mosca dentro d'água por alguns instantes até que o chenille fique encharcado, isso ajudará no seu afundamento.
      • O número de voltas com fio de chumbo e a adição de um bead head farão a mosca afundar mais rapidamente, regule a quantidade de lastro de acordo com as condições de pesca locais.
      • O deslocamento do lastro para a frente da mosca lhe conferirá um movimento de jig, que em determinadas condições pode ser muito efetivo. 
      Grande Abraço