terça-feira, 19 de março de 2019

Two Feather Fly

A simplicidade da pesca com mosca pode ser claramente observada em diversos aspectos que a envolvem. Desde o equipamento (que em algumas condições de pesca pode até ser bastante sofisticado, como as carretilhas utilizadas para a pesca de espécies marinhas, mas que ainda podem ser consideradas puramente um dispositivo para armazenar a linha), passando pela frugalidade do arremesso (cuja intenção primária é impulsionar a mosca até o peixe, através de movimentos da mão e do corpo, como propriamente escreveu o genial Mel Krieger no artigo Simplicity para a Federation of Fly Fishers), chegando até a caixa de moscas (onde exemplos como a Brassie e a Killer Bug nos lembram que moscas eficientes podem ser tão singelas quanto fios enrolados em um anzol). 


A simples e eficaz Two Feather Fly


Muitas vezes, manter as coisas simples (ainda que possa parecer paradoxal) não é uma tarefa fácil, e não raramente só os mestres conseguem essa proeza. Um dos mais consagrados e venerados mestres atadores americanos, Harry Darbee conseguiu retratar com particular veemência o conceito de simplicidade em um padrão que além de utilizar poucos materiais e exigir poucos passos para a montagem, superou um outro grande desafio: criar uma mosca extremamente leve que imitasse grandes espécies de mayflies. A Two Feather Fly foi concebida para ser atada em anzóis pequenos proporcionando a leveza necessária ao uso de tippets finos e apresentações delicadas. 

A genialidade desse padrão se deve principalmente ao fato de utilizar somente uma pena para a montagem da cauda, corpo e asas da mosca. A técnica empregada produz um corpo destacado (detached body) bastante realístico, uma cauda longa e delgada e asas no padrão Catskill, ligeiramente mais longas que as vistas nos atados mais modernos (essa mosca foi criada por volta dos anos 60). Essas asas mais longas até podem ser aparadas, particularmente as prefiro com as pontas ainda que sejam mais alongadas. 

Afora a simplicidade da construção e a modesta quantidade de materiais, há um passo muito importante nessa montagem (poderia-se dizer até que seria um passo de pré-montagem): a cautelosa escolha da pena que formará corpo, cauda e asas. Vejamos a seguir os cuidados necessários para a seleção adequada da pena, os outros materiais empregados e os passos da montagem. 

Material Básico:


  • Anzol Partridge Capitain Hamilton Dry Fly #16
  • Fio de atado 14/0, Cor Light Cahill, Dun ou Cinza Claro
  • Pena de Galo (Hackle) Grizzly
  • Pena de Pato (Mallard, Gadwall ou Woodduck) 



Passo a Passo:

1º Como dito antes, a correta escolha da pena é um dos pontos mais importantes para essa montagem. As fibras não devem variar muito de comprimento ao longo da pena, desde a base até a ponta. Escolhida a pena, retire a parte das plumas (fibras mais macias) expondo a raque (a parte central). 


2º Separe uma pequena quantidade de fibras da ponta (algo entre 20 e 30), segure-as com os dedos indicador e polegar da mão de atado (a mão direita para os destros) e puxe o restante das fibras no sentido oposto com a mão do material (a mão esquerda para os destros). Nesse ponto teremos 3 conjuntos de fibras, um punhado na direita, um punhado na esquerda e um punhado no meio. Desbaste o conjunto da esquerda e o da direita para que tenham aproximadamente a mesma quantidade de fibras que o punhado do meio.


3º Com o indicador e o polegar da mão de atado, segure as fibras aplicando um pouco de pressão, somente o necessário para permitir que a mão do material possa puxar a pena até que os punhados de fibras da esquerda e da direita estejam voltados para a base da pena formando o corpo da mosca. 


4º Coloque um anzol com a farpa amassada na morsa e faça uma pequena base de fio de atado iniciando a 2/3 do comprimento da haste, indo até sua metade no sentido da curva do anzol. 


5º Posicione a pena sobre a haste, com o punhado de fibras do meio voltado para a curva do anzol. Fixe a pena (e as fibras como estavam no passo 3) com duas voltas do fio de atado, impondo tensão suficiente para que a pena não saia do lugar, mas que permita puxá-la para trás (na direção da curva do anzol), até que o punhado de fibras que está pra frente e que formará as asas esteja com o tamanho adequado (aproximadamente 2,5 vezes o gap do anzol). Aplique mais três ou quatro voltas de thread com mais tensão para fixar melhor a pena. 


6º Aplique algumas voltas de fio de atado entre os punhados de fibras e a haste do anzol para dar firmeza às asas, cuidando para não fixar a raque da pena. Uma das melhores técnicas é movimentar o fio de atado com se estivesse desenhando um "X", começando pela frente do punhado de fibras, passando sobre a haste, voltando por baixo e seguindo da mesma forma pelo outro lado. 


7º Termine posicionando o fio de atado atrás das asas e corte a raque o mais rente possível da haste do anzol. 

Visão Superior

A visão frontal da mosca com as asas corretamente atadas deverá ser como na imagem abaixo.

Visão Frontal

8º Logo atrás das asas, prenda a pena de galo para formar o hackle, com a face brilhante voltada para cima. Avance com o fio de atado para a frente das asas, mais próximo ao olho do anzol. 


9º Aplique duas voltas com a pena na parte de trás das asas e mais duas a três voltas na parte da frente das asas. Arremate a amarração do hackle com algumas voltas do thread e corte o excesso da pena de galo.


10º Faça o nó de acabamento de sua preferência e aplique uma gota de cola para travar o nó. No tufo de penas do meio, separe 2 fibras de cada lado, puxando-as cuidadosamente no sentido contrário. 


11º Com a ponta da tesoura e uma boa dose de cautela, descarte o punhado de fibras que sobrou cortando a raque logo após as duas fibras separadas anteriormente para finalizar a cauda. 



Variantes:

Não há muito o que variar nesse padrão a não ser a tonalidade das penas que poderá ser natural, bronze, cinza, etc. Como havia dito acima, caso as asas tenham ficado demasiado compridas, pode-se apará-las para que tenham o tamanho ligeiramente maior que as fibras do hackle. E finalmente, na hipótese dos peixes estarem refugando, a parte de baixo do hackle pode ser aparada.


As asas e cauda longas e o corpo destacado retratam uma grande mayfly 
em um anzol relativamente pequeno dado o tamanho da mosca

Visão frontal mostrando as asas, o hackle e a cauda bifurcada



Como trabalhar a isca:

A técnica aplicada para esse padrão é a mesma para qualquer mosca seca, deve-se arremessar a mosca rio acima e deixá-la derivar da forma mais natural possível correnteza abaixo. Particularmente em águas calmas e lagos, pode-se lançar mão do twitching, fazendo levantamentos curtos da ponta da vara que farão a mosca dar breves avanços na superfície, e do skating aplicando-se pequenos toques, fazendo a mosca deslizar na superfície da água como se fosse um inseto pulando ou tentando voltar a voar.


Grande Abraço

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Atando como um Chef Francês

A gastronomia nasceu da descoberta do prazer que a comida poderia proporcionar ao homem, logo depois que esta cumpriu seu papel primordial: a alimentação para sobrevivência. A partir daí ela evoluiu, se requintou e fundamentou-se como a arte de cozinhar, mesclar ingredientes e retirar deles o máximo de proveito. Enquanto arte, a gastronomia inspirou gênios como Rossini, Camilo Castelo Branco e até Da Vinci, considerado como um dos precursores da Nouvelle Cuisine Française, reconhecida mundialmente como a escola de culinária que mais influenciou a gastronomia moderna. Seu primor por conceitos estéticos e pela aplicação de técnicas minuciosas elevou os pratos a um patamar de sensações que transformam, através do estímulo de diversos sentidos, o desejo pela comida em uma vontade quase incontrolável de degustá-los.

Disquette de Meringue aux Framboise 

Curiosamente, a Nouvelle Cuisine Française apresenta diversas similaridades com uma outra nobre arte que também tenciona despertar o mesmo desejo incontrolável pela comida (nos peixes), o atado de moscas ou como dizem os franceses: le montage des mouches. Ambas as atividades são baseadas em etapas bem definidas que se destinam aos mesmos objetivos, as duas também são caracterizadas pela sutileza na manufatura e pela delicadeza do resultado final. Ainda pode-se observar nesta e naquela, os mesmos fundamentos que permeiam todo o processo construtivo, como por exemplo a forte ênfase nas técnicas e o uso de utensílios específicos.

A primeira dessas etapas é a que os chefs de cozinha chamam de le choix des ingrédients ou em bom português, "a escolha dos ingredientes". É o momento de selecionar os melhores e mais frescos elementos para o preparo de seus pratos, exatamente como fazem os atadores quando esses elegem quais são os materiais mais adequados à montagem de suas moscas. Na sequência, esses itens devem ser medidos e reservados, legumes, verduras e carnes deverão estar limpos e cortados, os utensílios higienizados e separados. Esse conjunto de operações é conhecido como mise en place, cuja tradução literal é "colocar no lugar". 


Mise en place em uma bancada de cozinha 

Mosqueiros atadores também executam essa pré-preparação, que compreende por exemplo a retirada das plúmulas (tufos de plumas geralmente localizados próximos ao cálamo) das penas, modelagem de abdômens, tórax e outras partes em espuma, mistura de cores e materiais para produção de dubbing e tudo mais que seja necessário para facilitar, organizar e otimizar a montagem, proporcionando a uniformização das moscas e o desempenho do atador.

Mise en place em uma mesa de atado

Para que se possa garantir a padronização, evitar o desperdício, manter o controle de qualidade e assegurar que o prato seja reproduzível (mantidos os mesmos parâmetros toda vez que ele for preparado), é necessário seguir à risca a recette de cuisine (receita culinária). Nela estão descritas a relação dos ingredientes e suas quantidades, além da sequência de instruções que explicam como o prato deve ser preparado, les étapes de préparation. As receitas podem ainda apresentar informações adicionais como por exemplo o grau de dificuldade para a elaboração do prato, o tempo de preparação e o rendimento (número de porções) entre outras.


Etapa de preparo de recheio para uma receita de peru assado 


As receitas de moscas são de forma análoga às receitas culinárias, um conjunto de orientações detalhadas organizado na forma de uma lista ordenada. Essas instruções, mais conhecidas como "passo a passo", devem ser seguidas na sequência correta, aplicando em cada etapa as técnicas adequadas (les techniques, que os chefs também empregam em suas preparações). Os padrões (patterns como também são conhecidas as receitas de moscas) apresentam além dos passos para a construção, a lista de materiais básicos e necessários à montagem e podem incluir também alguns materiais opcionais, normalmente utilizados em variantes da receita original, indicações do grau de dificuldade, a quais espécies a mosca se destina e o modo de se trabalhar a isca.


Etapa intermedial do atado de um besouro, confecção das pernas

Tão importante quanto a escolha dos ingredientes, as instruções, o pré-preparo e as técnicas aplicadas, são os utensílios (les ustensilesmanuseados primorosamente pelos chefs de cuisine nas preparações. "Bater" claras de ovos em ponto de neve é uma tarefa que pode perfeitamente ser realizada com o que se tiver à mão, como por exemplo com um garfo, mas ao utilizar um fouet o chef de cuisine consegue ganhar tempo e uniformidade melhorando a qualidade do produto final. Ações como cortar legumes e carnes, ralar queijos, limões, chocolate, coar caldos e sucos, misturar massas, e muitas outras ficam enormemente facilitadas com o uso de equipamento apropriado. Para alguns segmentos da culinária, como por exemplo na Pâtisserie Française, o uso de uma balança de precisão para medir os ingredientes, pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma receita.

Balança de precisão inglesa para medição de líquidos e sólidos

Decerto que com poucas ferramentas de atado pode-se atar um grande número de receitas de moscas, para algumas delas a utilização de um ferramental apropriado é quase mandatório. Receitas de moscas que utilizam resinas de cura através de luz ultravioleta exigem o emprego de uma lanterna com esse tipo de luz para a perfeita secagem desse material. Moscas que apresentam asas no estilo upright, demandam obrigatoriamente uma tesoura curva para que a modelagem das asas seja facilitada e o resultado final, sem defeitos.


Tesoura curva, apropriada para algumas receitas de mosca 

Ainda há quem considere que a execução de uma atividade considerada uma arte deva ser realizada de forma desordenada, para que a criação não seja sufocada pela disciplina e organização. Particularmente concordo que durante o processo criativo, quando se está elaborando um novo prato, a experimentação de ingredientes e a adoção de técnicas alternativas de preparo, prática comum entre os chefs não deva ser subjulgada pelo planejamento. Da mesma forma, durante o atado de uma nova mosca (ou variante) o ensaio de outros materiais e a alternância de passos na aplicação destes, não deve balizar o mosqueiro atador, pois não se pode impor limites ao processo criativo.

Por outro lado, quando a receita (seja culinária, seja de atado) já é consolidada e experimentada com sucesso, não há porque não adotar as boas práticas do processo produtivo, gerando eficiência, economia e padronização do produto final das atividades, resultando em pratos inesquecíveis e moscas memoráveis. 


Teal Blue & Silver 


À plus tard et Gros Câlin (Até logo e Grande Abraço)

sábado, 21 de outubro de 2017

I Gotcha Babe

Quase uma unanimidade quando se fala da pesca de bonefish, a Gotcha está sempre entre as 10 moscas mais utilizadas para a pesca desse troféu de águas salgadas. Não importa em que parte do planeta se esteja planejando a pesca dos famosos fantasmas dos flats, das Maldivas às Bahamas, a Gotcha é um dos padrões que não pode deixar de estar na bagagem do mosqueiro viajante. Muitos pescadores experientes de bonefish e muitos guias acreditam que a Gotcha é ainda nos dias de hoje, a melhor mosca já criada pra esse tipo de pesca. 

E pode-se dizer sem medo de errar, que sua aplicação e eficiência não se limita somente à pesca do bonefish. Diversas outras espécies de peixes de águas salgadas e até muitas de água doce também se deixam seduzir pelo formato que lembra muito um pequeno crustáceo e pelos movimentos de sua asa e perninhas de borracha.



A história da criação dessa mosca é bastante interessante, durante uma viagem de pesca na qual Ted McVay e seu filho Jim ficariam hospedados no Andros Island Bonefish Club, durante o trajeto para o hotel, Jim arrancou alguns fios amarelos do tapete do táxi que os estava conduzindo e os usou para atar um novo padrão de mosca. No dia seguinte saíram pra pescar e, Jim resolveu testar a mosca, que demonstrou ser extremamente eficiente. Tanto que cada vez que um peixe era fisgado por ela, o guia Rupert Leadon que os estava acompanhando, dizia: "Gotcha"!

Bom, deixemos a história de lado e vamos à morsa.

Material Básico:


  • Anzol Mustad 34007 #4 - #1/0
  • Fio de atado 3/0, Cor Laranja Quente
  • Olhos de Halteres
  • Cordão trançado iridizado
  • Fio transparente iridizado (Glimmer)
  • Ultra Hair, Cor Camarão
  • Pernas de Borracha, Cor Laranja



Passo a Passo:

1º Coloque na morsa um anzol, faça uma base de linha desde o olho do anzol até o final da parte reta da haste, retorne enrolando até próximo ao olho do anzol, deixe uns 3 a 4 mm livres pra fazer o "nariz" da mosca.


2º Nesse ponto posicione os olhos de halteres, faça a fixação usando a técnica de amarração em X e depois reforce a base passando o fio de atado por baixo dos olhos, por trás e pela frente.


3º Imediatamente na frente dos olhos amarre um pedaço do cordão trançado iridizado com o tamanho de 4 vezes a haste do anzol. A fixação deverá ser feita na metade do comprimento.


4º Puxe as pontas do cordão pra trás, por cima dos olhos de halteres e cubra com o fio de atado até o final da parte reta da haste do anzol. Retorne com o thread enrolando até a parte de trás dos olhos de halteres.  




5º Neste ponto, fixe um outro pedaço de cordão iridizado de mesmo comprimento do anterior, só que dessa vez prenda o fio por uma das pontas.



6º Novamente enrole o thread por cima do cordão iridizado até o final da parte reta da haste do anzol e retorne até o ponto imediatamente atrás dos olhos de halteres.





7º Aplique uma gota de cola de cianoacrilato sobre o corpo da mosca e espalhe bem com a ponta de um bodkin.





8º Enrole o cordão iridizado sobre o corpo da mosca, pare no ponto onde está o fio de atado. Fixe com algumas voltas do thread e passe o fio de atado para a frente dos olhos de halteres, puxe o cordão por cima dos olhos de halteres e fixe novamente com algumas voltas do thread.





9º Com a ponta de um bodkin, desfie o cordão iridizado deixando sua pontas soltas. 





10º Separe metade dos fios pra cada lado, puxe para baixo e fixe com algumas voltas do thread. 





11º Faça o mesmo com as duas pontas de cordão iridizado que ficaram pra trás. Após ter desfiado as pontas, junte todos os fios, puxe-os pra frente e apare usando como medida o olho do anzol.





12º Com uma escovinha, penteie os fios da cauda para que assumam uma direção mais reta. 



13º Gire a morsa ou vire a mosca e no ponto onde estava o fio de atado prenda 4 perninhas de borracha, o comprimento deverá ser ligeiramente maior que a cauda.



14º Separe um tufo de ultra hair para a montagem da "asa" da mosca. Esse tufo deverá ter um comprimento maior que as perninhas de borracha, aproximadamente 2 vezes o tamanho do anzol. Amarre o tufo com algumas voltas do fio de atado, cuidando para que o tufo permaneça no lugar, sem espalhar os fios.



15º Fixe no mesmo ponto, 4 fios transparentes iridizados (glimmer), pela metade do comprimento. Puxe a outra metade dos fios pra trás e prenda com algumas voltas do thread. Faça o "nariz" da mosca com várias voltas do fio de atado, a intenção é formar um cone. Dê o nó de acabamento e finalize com uma gota de cola.



Variantes:

Há indícios de que a Gotcha seja uma variante da Crazy Charlie, então as variações da Gotcha seriam ainda mais diversas. Há versões com cores diferentes, com olhos de corrente, com os mais diversos materiais pra asa (craft fur, pelúcia, EP Fiber, pelos, penas, etc), com asas mais curtas, com asas mais longas, com perninhas de borracha mais longas, com olhos de camarão na cauda, sem olhos, enfim a imaginação é o limite quando se fala de variantes dessa mosca.


Algumas variantes micro, totalmente sintéticas com olhos de corrente 


Como trabalhar a isca:

Assim como a Crazy Charlie e a Clouser Minnow, essa mosca trabalha basicamente como um jig, por conta do peso dos olhos de halteres posicionados bem próximos ao olho do anzol. Basicamente deve-se arremessar a mosca e dependendo da profundidade que se queira alcançar aguardar para que ela afunde, depois basta recolher com pequenos puxões fazendo-a avançar como um camarão que nada fugindo de um predador. A cada puxão, deve-se aguardar 1 ou 2 segundos para que ela afunde novamente como se estivesse morrendo. 

Grande Abraço

sexta-feira, 24 de março de 2017

As atrativas curvas da Hydropsyche Caddis


O gênero Hydropsyche faz parte de um grupo particularmente interessante de representantes da ordem Trichoptera (Caddis), as tecedoras de redes (net-spinning caddisflies). Os indivíduos desse gênero constroem moradias (retiros) em forma de túneis em pedras ou troncos submersos, utilizando como matéria-prima fios de seda muito parecidos com os produzidos por algumas espécies de lagartas, pedaços de plantas e de pedras. Na parte traseira desses refúgios fixam uma espécie de rede de espera (semelhantes às teias de aranhas) com a qual capturam os alimentos (algas, pequenos invertebrados, material orgânico em decomposição) trazidos pela correnteza da água (locais onde habitam e que são ideais para essa técnica de obtenção de comida).

Swimming Hydropsyche Larvae, curvas irresistíveis aos peixes

Durante a fase de larva são extremamente territorialistas, defendendo com agressividade seus refúgios e redondezas, não sendo incomum conflitos entre indivíduos lutando por espaço. A movimentação para a defesa do território, para para a coleta do alimento que se prende às redes e para reparos em seus abrigos, as expõem constantemente às correntezas dos locais onde residem, deixando-as muitas das vezes à deriva e à mercê dos peixes que também estão posicionados nos fluxos de água esperando por alimento.


Larvas de Hydropsyche capturadas em duas coletas entomológicas no mesmo local 

Possuem corpo cilíndrico e longilíneo dividido em cabeça, tórax e abdômen, sendo este último representativo de 2/3 a 4/5 de seu comprimento total. Apresentam variação de coloração indo desde o cinza, até o amarelo passando pelo verde e marrom, a cabeça e o tórax via de regra são negros ou marrom-escuros, com 3 pares de patas de mesma coloração. Comumente assumem uma postura curvada em forma senoidal, principalmente quando são carregadas pela correnteza e se contorcem serpenteando o corpo na tentativa de "nadar". Esse movimento ondulatório as torna ainda mais atrativas aos peixes que as espreitam, razão pela qual foi feita a escolha do modelo específico de anzol para essa receita, uma variação da Hydropsyche Larvae criada pelo mestre Oliver Edwards

Pré-Montagem:

Apesar de já existirem materiais próprios para essa montagem, é perfeitamente possível adaptar alguns elementos da receita com pouco esforço e nenhum prejuízo, como por exemplo no caso da folha de chumbo, da qual utiliza-se uma fina tira de aproximadamente 1,5 milímetros, que será substituída por um pedaço de fio de chumbo tradicional, achatado com um pequeno martelo. 

Use um pequeno martelo para achatar um pedaço de fio de chumbo 

Originalmente, o abdômen dessa mosca é recoberto com Nymph Skin, um filete de látex translúcido com 3 milímetros de largura. Em seu lugar podemos usar sem problemas, uma tira recortada a partir de uma luva de procedimento cirúrgico. Esse material é bastante resistente, fácil de se trabalhar e pode ser colorizado sem esforço com a ajuda de um marcador permanente.

A partir de uma luva cirúrgica, recorte uma tira para recobrir o abdômen da mosca 

Vejamos a seguir a lista de materiais utilizados nessa variante e o passo a passo da montagem.

Material Básico:
  • Anzol para ninfas tipo Swimming #14 - #10 , nessa montagem, Partridge Swimming Nymph #14
  • Fio de atado 8/0, branco
  • Folha de Chumbo
  • Nymph Skin, natural
  • Pena (pluma) de Perdiz Cinzenta (Hungarian Partridge)
  • Fibras de Pena de Avestruz, natural
  • Fibras de Pena de Faisão, natural
  • Marcador Permanente (laranja e preto)


Passo a Passo:

1º Coloque na morsa um anzol com a farpa amassada. Para essa receita não será necessário iniciar o atado com uma base de fio de atado, pois a fita de chumbo cobrirá quase totalmente a haste.


2º Enrole a fita de chumbo no anzol, iniciando pela parte superior da curva do gap, percorrendo toda a haste até bem próximo do olho. Reserve um pequeno espaço para terminar a amarração dos materiais e formar a cabeça da mosca.


3º Enrole o fio de atado por cima do chumbo, preenchendo os gaps com mais voltas do thread de forma a deixar o subcorpo mais uniforme. Não há necessidade de muito esmero, pois o nymph skin cobrirá tudo, mas o resultado final será melhor tanto quanto o subcorpo estiver mais nivelado.


4º Procure dentre as penas de perdiz cinzenta, ou outro pássaro, uma pluma para ser usada na confecção das brânquias da larva. 


5º Posicione a pluma em cima do chumbo, na parte superior da curva do gap, deixando uns 2 centímetros livres para trás. Fixe com o fio de atado, enrolando até o meio da haste e corte o excesso.


6º Segure a parte livre da pluma e apare-a, deixando somente um pequeno tufo (uns 5 ou 6 milímetros) para formar as brânquias da larva.


7º Separe três fibras de pena de avestruz e prenda-as por baixo da haste do anzol, enrolando o fio de atado até o ponto onde está o chumbo.


8º Nesse mesmo ponto fixe a tira de nymph skin, posicionando-a na parte de cima da haste do anzol.


9º Faça uma alça com o fio de atado medindo aproximadamente 7 centímetros de comprimento, trave a alça com umas três voltas, deixa-a solta nesse ponto e avance com o thread até o olho do anzol.


10º Enrole a tira de nymph skin cuidando para que cada volta se sobreponha à volta anterior. 


11º Siga dessa forma até pouco antes do olho do anzol. Trave com algumas voltas do fio de atado e corte o excesso. Retorne com o fio de atado para trás, até aproximadamente 1/3 do comprimento da haste do anzol, tomando o cuidado para que cada volta do fio de atado fique encaixada nos segmentos deixados pela tira de nymph skin.


12º Corte uma das pontas da alça. Puxe as fibras de pena de avestruz pra frente, pela parte de baixo do corpo da mosca e com o pedaço de fio de atado que antes era a alça, siga enrolando e prendendo as fibras de avestruz, até o ponto onde está o thread do bobbin. Mais uma vez, cuide para que cada volta do fio de atado fique encaixada nos segmentos deixados pela tira de nymph skin.


13º Finalize a fixação das fibras de avestruz e o thread auxiliar (da alça) usando o fio de atado do bobbin. Corte o excesso do thread auxiliar e o excesso das fibras de avestruz.


14º Segure uma pena de faisão pela raque em uma das mãos, separe 6 fibras com a outra mão e arranque-as com um puxão no plano perpendicular à raque da pena. Dessa forma, na base de cada fibra se formarão pequenos ganchos.


15º Gire a mosca e na primeira volta (segmento) após a fibra de avestruz, prenda 2 das fibras de faisão, deixando os ganchos formados no arranquio voltados para frente. Posicione as fibras para os lados do corpo da mosca, porém mantendo-as ainda na parte de baixo. 


16º Puxe delicadamente cada fibra até que estejam com um tamanho pouco maior que as fibras das penas de avestruz. Tensione o fio de atado e avance um segmento (volta) para frente.


17º Repita o passo anterior mais duas vezes, cuidando para que cada par de pernas seguinte tenha um comprimento ligeiramente menor que o par anterior. Avance até imediatamente antes do olho do anzol e com algumas voltas do fio de atado, faça uma pequena cabeça, dê o nó de finalização e aplique uma gota de cola para travar.


18º Gire novamente a mosca e com o marcador permanente laranja, pinte o dorso da mosca, desde o início do abdômen até o tórax (essa divisória coincide com o segmento onde foi fixado o primeiro par de pernas).


19º Com o marcador permanente preto, pinte o tórax e a cabeça da mosca (somente na parte superior). Aplique uma gota de verniz (esmalte ou head cement) na cabeça da larva e está finalizado.



Variantes:

As variações podem incluir materiais alternativos, como os apresentados na pré-montagem, mas basicamente se resumirão às cores da cabeça e tórax e do abdômen, para que esteja de acordo com os indivíduos coletados no local de pesca.

Como trabalhar a isca:

Além da clássica forma de utilizar uma ninfa montada ao final do leader, essa mosca comumente é usada como a ninfa do meio (a mais pesada) em uma montagem do tipo Czech Nymphing. Em ambos os casos, a técnica mais usual para pescar é upstream com pouca linha (praticamente só o leader e um metro da linha de mosca pra fora da vara), varrendo todo o entorno à frente do pescador. É recomendável utilizar um indicador de fisgada bastante discreto (delgado), que em função da curta distância, será perfeitamente visível.


Montagem Czech Nymphing com strike indicator

Grande Abraço