sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ração Artificial

Pra quem mora nos grandes centros ou em cidades que não possuem muitos locais naturais com a presença de peixes esportivos, o pesqueiro ou pesque e pague (hoje já existe também o pesque e solte ou pesque e devolva) é uma alternativa prática e confortável para treinar arremessos e porque não dizer de um ótimo divertimento considerando-se as possibilidades de boas fisgadas. E para não contar exclusivamente com a sorte, o cuidado com alguns detalhes aumentam de sobremaneira as possibilidades de se levar de volta pra casa aquela tão desejada foto. 


Lago do Parque Cão Sentado - Nova Friburgo 

Um dos componentes mais importantes é a isca (neste caso, a mosca). Muitos dos peixes presentes em pesqueiros possuem (em maior ou menor grau) parte de sua memória genética (ou instinto animal) preservada, e mesmo em cativeiro ainda são capazes de reproduzir determinados comportamentos, principalmente os relacionados à sobrevivência das espécies (tais como: acasalamento, proteção e alimentação). Podemos então considerar como premissa que as iscas a serem utilizadas nos pesqueiros deveriam ser as mesmas que utilizaríamos caso o peixe estivesse em seu ambiente natural, isso em parte é verdade. Devido à preservação da memória genética, uma mosca imitando um peixinho, um inseto ou um verme seria suficiente para atrair a atenção daquela bela tilápia, mas muitas vezes essas iscas são totalmente ignoradas imprimindo imensa frustração no mosqueiro que vê o peixe e não consegue fisgá-lo. Então que mosca utilizar em uma situação dessas?


Cardume de Tambacús - Parque Cão Sentado - Nova Friburgo

Eu admito que aos olhos dos puristas isso não poderia ser classificado como uma "mosca", mas se levarmos em consideração que a isca é a imitação artificial do alimento do peixe e ainda, partindo-se do princípio que os peixes criados em um pesqueiro se alimentam basicamente de ração, então me atrevo a dizer não só que isso é uma mosca, mas também que essa isca não deve faltar na caixa de qualquer mosqueiro que queira se aventurar por essas águas.


Ração Natural e Ração Artificial

Existem diversas receitas de ração artificial: bolinha de lã (wool ball), de pêlos (hair ball), miçangas, discos de cortiça, e talvez a mais popular e a mais utilizada: a Ração de EVA. Ainda podemos encontrar algumas variações inclusive que combinam mais de um desses materiais (EVA + Cortiça, EVA + Lã, etc). É uma "mosca" extremamente simples de ser "atada", tanto que foi a primeira que confeccionei (em meus passos iniciais utilizando material e ferramentas de atado).

Material Básico:
  • Anzol com boa abertura (utilizo o modelo 12146 da Marine Sports #4)
  • Folhas de EVA (cores próximas ao castanho)
  • Thread 6/0
  • Colas para EVA e Cianoacrilato

Material Opcional:
  • Cortiça
  • Retalhos de EVA Colorido
  • Pincel Marcador Permanente
  • Esmalte ou Tinta Acrílica

Passo a Passo:

1º Empilhe e cole 3 folhas de EVA (se preferir corte a folha em pedaços menores) usando a cola para EVA formando um sanduíche. 


2º Deixe secar completamente conforme indicação do fabricante da cola.


3º Com um cortador de couro e um martelo (para esse anzol utilizo um cortador de 11 mm de diâmetro), corte os discos de EVA que formarão as "bolinhas" de ração.


Os cortes podem ser feitos bem próximos uns dos outros aproveitando ao máximo o material.


4º Com um estilete ou lâmina de barbear faça um corte no disco superior da ração, este corte servirá para a fixação ao anzol.


5º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa e faça uma base de fio de atado até a curva do anzol. Faça um nó e corte o fio de atado.


6º Passe a cola de cianoacrilato sobre a base de fio e fixe a ração ao anzol, encaixando a haste no corte feito no disco superior.


7º Aguarde alguns segundos para secar e está pronto!


Variações:

As folhas de EVA normalmente tem 2 mm, alternativamente ao sanduíche podem ser usadas placas de EVA do tipo tatame/tapete (recomendo no mínimo a espessura de 5 mm).

Placas de Tatame de EVA

Placas de diferentes cores, espessuras e materiais podem ser utilizados, desde que a flutuabilidade da ração não fique comprometida

Combinações com outras cores e espessuras e com cortiça

Para locais com águas escuras, próximas da cor da ração, é aconselhável a adição de um indicador de batida (strike indicator) de modo a facilitar a localização da isca. Existem diversas formas de adicionar o indicador: com um marcador permanente, esmalte ou tinta acrílica, ou até mesmo um pequeno retalho de EVA colorido colado no lado oposto ao do anzol.

EVA amarelo agindo como indicador de batida

Como trabalhar a isca:

Basta lançar a isca na água e aguardar a batida do peixe. Caso os peixes estejam refugando ou de modo a aumentar a chance de capturas, pode-se lançar punhados de ração natural próximo à mosca (se a mosca estiver distante, pode-se lançar a ração natural usando uma vara auxiliar com bóia cevadeira ou um estilingue específico para esse fim).

Atestando a eficiência da ração com as Tilápias

e também com as Carpas


Lembre de Não Esquecer:
  • O diâmetro dos discos de EVA (cortador) deverá ser aumentado ou diminuído de acordo com o tamanho da haste do anzol. Assim como o tamanho do anzol deverá estar compatível com o tamanho e a boca do peixe. 
  • Qualquer outro anzol pode ser utilizado, dê preferência aos curtos com abertura grande (tipo Chinu).
  • Prepare um boa quantidade de rações, caso o peixe possua dentição avanjatada, após algumas capturas a ração poderá ficar bem danificada.
Grande Abraço

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A Escolha da Mosca

Este talvez seja um dos maiores desafios de um mosqueiro: acertar na escolha da isca. Essa duríssima tarefa é de tal importância que pode determinar o sucesso das suas capturas ou o fracasso de não conseguir sequer uma fisgada. O que a princípio parece ser extremamente simples, pode em certos casos se transformar em um imbróglio mais difícil de resolver do que um leader embaraçado. 

A árdua tarefa de escolher a mosca
Fonte: http://www.caseysmartt.com

É muito comum que essa pergunta se manifeste em um papo entre pescadores ou em um processo de coleta de informações sobre determinado local ou uma espécie de peixe: "Qual é a melhor isca para se usar aqui?" A melhor resposta para essa questão pode parecer um tanto direta e até mesmo grosseira, porém é a mais pura verdade: "O que o peixe está comendo!"

É fato que por mais que uma determinada espécie seja conhecida pela predileção a determinado alimento, existem condições (de várias naturezas) que podem alterar seus hábitos alimentares e transformar aquela mosca clássica  em um tremendo fiasco. A isca mais utilizada na captura do robalo é o camarão, são quase sinônimos, logo para uma pescaria de robalo basta encher a flybox com Gênesis, Crystal Shrimps, Honey Shrimps e outras imitações de camarão que as fisgadas estão garantidas, não é? Nem sempre! Em função das características locais (clima, circunstância da água, disponibilidade de alimento e outros milhões de fatores), o camarão pode simplesmente não existir ali, e caso este seja o lugar escolhido para aquela tão esperada pescaria de robalos, o resultado poderá ser bastante frustrante. Neste local caso os robalos estejam habituados a outro tipo de alimento (pequenos peixes por exemplo) as moscas mais efetivas serão streamers.

Vespas sob a ponte pênsil de um lago

A forma mais simples de se ter um ponto de partida para a escolha da mosca é a observação do local de pesca. Examinar a superfície da água identificando quais insetos estão presentes servindo de alimento aos peixes é um bom indicativo de quais padrões de moscas serão mais eficientes. Analise o espaço ao redor: vegetação, margens e até as teias de aranhas podem revelar que tipos de insetos vivem na região direcionando a escolha da isca.

Exoesqueleto indicando a presença de libélulas no local

Caso haja a confirmação da existência de ninfas, adultos ou mesmo de exoesqueletos resultantes de mudas, o uso de um padrão que se assemelhe a essa espécie tem grandes chances de produzir um bom resultado. 

Libélula adulta atada segundo o padrão criado pela GOFLY

Uma outra maneira de descobrir que alimento há em determinado local é através da coleta. De posse de uma pequena rede colhe-se amostras dos seres que habitam o rio, lago ou determinada região do mar, revelando qual o alimento mais abundante e que provavelmente resultará em mais capturas.

Fonte: Fly Tying - an Enjoyable Hobby

Além de um padrão de iscas representativo dos alimentos locais, há outros aspectos a se observar quando da escolha de uma mosca:

Cores:

Muitos peixes não tem visão muito desenvolvida, os bagres que vivem em águas turvas por exemplo tem esse como seu pior sentido. Já a truta é reconhecidamente um peixe de visão privilegiada podendo perceber detalhes que a maioria das espécies não consegue. Deve-se também ter em mente que as cores não são enxergadas pelos peixes da mesma forma que pelos humanos, nossos olhos são diferentes e mesmo entre as espécies existem variações. Porém a prática demonstra que para determinadas situações certas cores produzem melhores resultados, faça as experimentações e principalmente as anotações de quais cores funcionam melhor em quais condições.

Exemplos de cores para certas condições

Movimento:

Este também é um aspecto muito importante na tomada de decisão de qual mosca utilizar. Em determinadas situações, a vibração causada pelo material ou pelo formato da mosca se torna seu maior atrativo. Observa-se ainda que determinadas espécies mudam de hábitos em função das condições climáticas ou época do ano, e uma isca que era muito atrativa devido ao seu movimento no verão, pode se tornar totalmente ineficiente no inverno, exigindo do mosqueiro a observação constante do comportamento dos peixes e a adequação da isca às novas circunstâncias.

Tamanho:

Pode parecer óbvio que o tamanho da mosca tem que estar compatível com a dimensão do peixe, porém novamente essa não é uma regra. A adequação do tamanho do anzol e da isca na grande maioria das vezes deve mesmo respeitar uma certa proporcionalidade, mas em casos especiais como o da truta aquela velha máxima "isca grande para peixe grande" não vale. Na maioria das vezes a truta se alimenta de pequenos insetos e de suas ninfas tornando a relação dimensão da mosca x tamanho do peixe totalmente desproporcional.


Fonte: http://www.lemouching.com

Textura:

Algumas espécies de peixes são capazes de detectar a textura do alimento com a boca ou com os barbilhões, inspecionando sua rigidez ou maciez. Uma mosca com textura similar aos alimentos disponíveis aumentam as chances de sucesso.

Silhueta:

O formato da mosca, principalmente nas que flutuam, talvez seja ainda mais importante que suas cores. A impressão que um inseto descreve na superfície da água é facilmente reconhecida pelos peixes que dele se alimentam e o possibilitam diferenciar uma simples folha de uma formiga. Algumas moscas se assemelham muito aos modelos naturais tornando bastante difícil para o peixe distinguir qual é o verdadeiro e qual é a imitação.

Scud à esquerda o verdadeiro - à direita a artificial

Por fim tenha em mente ainda que existem outros fatores que podem influenciar a escolha da mosca como por exemplo: sazonalidade da oferta de alimentos (eventos de revoadas de tanajuras e cupins), períodos de reprodução/cuidados com a cria, condições da água e muitos outros. O importante é o mosqueiro estar sempre atento, investir tempo na observação e pesquisa do ambiente onde pretende praticar a pesca, anotar as variações de comportamento dos peixes e do ambiente que os cerca de forma a garantir uma diversidade que padrões que cubram eventuais situações fora do esperado. Nunca é demais lembrar que a intuição do pescador também tem grande peso na escolha da mosca, a confiança na seleção da isca se traduz em disciplina, aplicação e persistência, potencializando de sobremaneira os resultados.

Grande Abraço

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Craft Fur Minnow

A principal função de uma isca artificial é imitar de alguma forma o alimento que o peixe, alvo de desejo do pescador, está normalmente acostumado a encontrar no ambiente em que vive. A semelhança da isca artificial com um inseto, um peixinho, uma fruta, etc, pode estar relacionada ao formato, textura, cor e outros diversos aspectos, mas principalmente está associada ao movimento. As vibrações que a isca artificial transmite ao peixe, ou a visão de seus movimentos, sejam eles causados pelo material e/ou pelo trabalho que o pescador aplica à isca, são na maioria das vezes a forma mais efetiva de atraí-los.

Com o Fly não é diferente, as moscas são confeccionadas para despertar a curiosidade ou a agressividade dos peixes, tornando-as na maioria das vezes irresistíveis a seus instintos naturais de alimentação e territorialismo. Uma das iscas que mais fielmente representa os movimentos, principalmente de pequenos peixes, é o Streamer. Os Streamers são atados de forma a permitir que o material com o qual é confeccionado tenha livre movimento e "pulse"  ou "tremule" (movimentando-se de forma similar a um polvo, uma medusa e peixes alongados de formato fusiforme), para tanto, as fibras do material utilizado necessariamente deverão ser longas e flexíveis.

O simples, versátil e eficiente Craft Fur Minnow

É sempre bom ter opções de cores

Esse Streamer foi uma das primeiras iscas que atei, é uma mosca bem simples de ser confeccionada, fácil de ser arremessada e muito eficiente para a captura de várias espécies de água doce ou salgada. Nesta montagem utilizei o Craft Fur pois é uma fibra de bom comprimento e muito maleável, mesmo se a isca ficar mais comprida do que o esperado não irá atrapalhar a fisgada, o peixe conseguirá facilmente abocanhar a isca inteira. Além disso, apesar de ser uma fibra longa, o Craft Fur desembaraça com extrema facilidade, se a mosca ficar embolada depois de uma captura, é bem simples fazê-la voltar ao formato original. Mas chega de papo, vamos à receita:

Material Básico:
  • Anzol Gamakatsu Octopus #8
  • Craft Fur (2 cores)
  • Angel Hair
  • Thread 6/0
  • Cola Cianoacrilato
Material Opcional:
  • Olhos (prismáticos, 3D, etc)
  • Penas Marabou (Cor Vermelha)
  • Pincel Marcador Permanente
  • Resina Epóxi
Passo a Passo:

1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa, passe cola na haste e faça uma base de fio de atado até a curva do anzol (onde será fixado o primeiro tufo de fibras). Passe outra camada de cola por cima do thread.


2º Pegue um tufo de Craft Fur de uma das cores (normalmente a mais clara fica na parte de baixo da isca), gire o anzol e o posicione com a haste virada para baixo (essa é a vantagem de se possuir uma morsa giratória) e fixe o tufo na parte de baixo do anzol bem próximo à curva. Vire o anzol novamente para cima, reparta o tufo ao meio e penteie para trás e para cima usando a escova de velcro (não use muito material, como essa operação se repetirá mais vezes, a isca ganhará volume aos poucos).


3º Pegue outro tufo de Craft Fur (a cor mais escura) e fixe na parte de cima do anzol, penteie novamente. Repita os passos 2 e 3 atando os tufos seguidamente em direção ao olho do anzol até que sobre somente uma pequena parte da haste descoberta.



4º Com a isca posicionada de lado (novamente se percebe aqui a importância de uma morsa giratória), fixe alguns fios de Angel Hair em cada uma das laterais da isca (dobre o fio do Angel Hair envolvendo o thread, isso facilita em muito a sua fixação), tente posicioná-los sobre o encontro das 2 cores das fibras formando a linha lateral. Corte o excesso para que tenha no máximo o comprimento da mosca.



5º No espaço descoberto da haste, faça um "cone" de linha de atado, ele  garantirá a hidrodinâmica da mosca, facilitando o seu nado. Esse cone pode ser feito com um fio de atado de cor diferente, por exemplo vermelho para tornar a isca mais atrativa. Faça um nó de finalização e aplique um pouco de cola sobre o cone, pra manter tudo firme.



Variação com thread vermelho 

Neste ponto a mosca já está pronta, pode ser utilizada normalmente e já será eficiente. Entretanto podemos incrementá-la com mais alguns detalhes, e adicionar um pouco mais de realismo e estética.


Nesta etapa a mosca já pode ser usada 

Variações:

Com algumas gotas de cola, fixe um olho de cada lado da isca, imediatamente atrás do cone de thread, pressione dando um formato achatado à cabeça da mosca.



Pode-se também adicionar algumas listras verticais, manchas ou pintas com um marcador permanente, imitando a coloração de certas espécies de peixes.


Temos ainda a opção de atar um último tufo de Marabou/Craft Fur (ou outra fibra) vermelho, na parte de baixo do anzol, imitando as guelras do peixe. Esse tufo deverá ser atado antes do passo 5 e deve ser bem mais curto que os demais, não devendo ultrapassar o gap (abertura) do anzol, não o penteie para cima. 


E finalmente pode-se aplicar uma fina camada de epóxi sobre a cabeça da isca, cobrindo desde o início do cone até a parte atrás dos olhos.


Como trabalhar a isca:

Essa é uma isca muito simples de se trabalhar, o movimento deve ser feito puxando-se a linha alternadamente com alguns segundos de parada, de forma a imprimir à mosca uma ação do tipo avance/pare. Deve-se variar a velocidade e a quantidade de linha puxada (deslocamento) em função da atividade dos peixes, quando estiverem mais ativos, pode-se puxar de forma mais vigorosa. Caso esteja mais letárgicos ou refugando, trabalhe de modo lento.

Comprovando a eficiência da mosca com um Black Bass

Lembre de Não Esquecer:
  • O tamanho do anzol deverá sempre ser compatível com o tamanho e a boca do peixe.
  • Qualquer outra fibra longa pode ser utilizada (inclusive combinando-se fibras diferentes), as cores ficam por conta do gosto do atador e das espécies que habitam o ambiente e servem de alimento ao peixe (que se deseja fisgar).
  • Penteie as fibras antes de começar a utilizá-las, um pente comum resolve a questão.
  • Assim como as fibras, pode ser usado qualquer outro material para dar brilho (Flashabou, Lateral Scale, etc), procure usar uma cor que combine com as cores das fibras.
  • Apesar de não haver necessidade, as fibras podem ser aparadas dando o formato desejado pelo atador à mosca.
Grande Abraço

sábado, 15 de dezembro de 2012

Melhores Práticas

Nem sempre as regras ou normas estabelecidas pelos acadêmicos são as formas mais efetivas de execução de uma tarefa. Muitas vezes, soluções de contorno são maneiras mais fáceis e produtivas de se chegar ao mesmo resultado caso fossem aplicados os passos "como manda o figurino". Também chamadas de "Pulo do Gato", dicas, macetes ou "Melhores Práticas", tratam-se na verdade de métodos ou técnicas que produzem consistentemente resultados superiores àqueles atingidos por outros meios. Então, vamos a algumas melhores práticas do atado!

Base Estável para o(s) vidro(s) de cola(s)

É bastante comum o atador estar com uma das mãos ocupada segurando o material a ser fixado no anzol enquanto a outra procura uma ferramenta, é justamente nesta hora que esbarra-se no vidro de cola provocando uma tragédia grega! Para evitar tais catástrofes replico aqui uma ótima sacada retirada de um mini-curso de atado em DVD do mestre Lefty Kreh: um pedaço de espuma, isopor ou EVA no qual se faz um encaixe para o(s) vidro(s) de cola, fixado a uma fina lâmina de madeira ou plástico.


O conjunto confere a estabilidade necessária para garantir o sossego do atador

Prendendo corretamente o Anzol na Morsa

Fixar o anzol (hook) corretamente na morsa é fundamental para atar uma mosca, evita acidentes, melhora o acabamento, reduz o retrabalho. Para prendê-lo de forma a transmitir segurança e confiabilidade ao atador, convém observar os seguintes pontos:
  1. A haste (shank) deverá estar paralela à mesa ou bancada onde está a morsa (vise).
  2. Deve ser fixado apenas pela parte inferior da curva (bend), permitindo o atado de materiais na parte superior.  
  3. A parte que ficará presa deverá ser somente o suficiente para mantê-lo firme na posição. Pode-se testar a fixação forçando a haste pra baixo bem próximo ao olho (eye), se estiver bem fixado a haste retornará à posição horizontal sem que o anzol saia do lugar.
Para facilitar, imagine um círculo divido em quadrantes sobreposto à curva do anzol, o ponto de fixação deve ser determinado pelo quadrante inferior esquerdo (quadrante número 3).


Para quem ainda não dominou o controle do Bobbin, sugiro colocar a ponta do anzol (point) entre as pinças da morsa, de forma a evitar que o fio de atado (thread) seja lacerado podendo inclusive resultar em sua ruptura.


Ah, e não custa nada lembrar: Anzol sem farpa (barb) ou com a farpa amassada sai muito mais fácil da roupa, facilita a fisgada e a liberação do peixe.

Fixando o material no Anzol

Devido ao movimento de enrolamento do fio sobre o material a ser fixado no anzol, cuja haste é cilíndrica, existe uma tendência do material girar sobre a haste à media em que o fio de atado é tensionado. Para evitar o giro e consequentemente que o material fique fora da posição desejada, siga os seguintes passos:

1. Prenda o material sobre o ponto de fixação usando o polegar e o indicador.


2. Passe o thread entre o polegar e o indicador e depois passe por trás da haste do anzol, dando uma volta completa com o fio sobre o material.

3. Não tensione o thread, repita o passo anterior dando uma segunda volta sobre o material.

4. Solte os dedos e se preciso faça os ajustes de reposicionamento necessários.

5. Recoloque somente o indicador sobre o material e tensione o fio de atado dando mais três voltas completas sobre o material sem afrouxar a tensão no fio.

Procure realizar exatamente o número de voltas necessárias para a fixação do material, sempre que possível evite exceder esse número. O resultado final será uma isca com melhor acabamento e proporção. 

Uma outra forma de posicionar o thread precisamente bem rente aos dedos (exatamente no ponto onde deseja-se fixar o material) é antes de executar a primeira volta, girar o Bobbin no sentido horário torcendo o thread. Quando a primeira volta em torno do material for executada, o fio de atado (torcido) tenderá a se destorcer na direção da curva do anzol.


Aplicando o Dubbing ao Fio de Atado

A técnica mais comum de Dubbing é a aplicação direta de pequenas quantidades de material diretamente ao thread, simplesmente torcendo essa porção de material sobre o fio de atado no sentido horário. Mas nem todo material adere de forma satisfatória, nesses casos, e de forma geral para o atador iniciante, uma fina camada de cera de abelha aplicada sobre o thread criará o atrito necessário sobre a superfície do fio para que o material se fixe adequadamente. Alguns fios de atado já são pré-encerados, porém não se comparam a um thread com uma camada de cera aplicada manualmente. Para facilitar a aplicação da cera de abelha ao fio de atado, basta moldá-la em um formato de bastão ou sabonete.

Aplicando cera de abelha ao fio de atado 

Garantindo a hidrodinâmica das iscas

Muitas moscas, em especial os streamers, normalmente possuem um formato alongado e fusiforme. De modo a facilitar o nado dessas iscas, as fibras estão  dispostas longitudinalmente direcionadas para trás, proporcionando fluência e  diminuição do arrasto. É importante manter o material nessa disposição até que esteja adequadamente atado, para tanto pode-se simplesmente "puxá-lo" para trás com auxílio dos dedos indicador, médio e polegar ou utilizar um Hackle Guard. A ação de puxar para trás as fibras do material também é muito  utilizada nas finalizações das iscas, principalmente quando a isca tem um hackle.
   
Usando os três dedos

O Hackle Guard

Existem outras formas de manter as fibras no lugar até que estejam atadas, pode-se usar um pedaço de saco plástico, um elástico, mas o substituto mais simples e prático é um pedaço de canudinho de refrigerante no qual se aplica um corte longitudinal para a passagem do thread.


Pedaço de canudinho cortado usado como Hackle Guard

Evitando o retrabalho

É muito comum haver sobra de material após a fixação com o fio de atado, esse excesso precisa ser aparado, nessa hora não é incomum cortar o thread junto com a sobra de material. A melhor forma de evitar isso e ter que refazer o trabalho até esse ponto é sempre levantar o material antes de aparar, pois o fio de atado estará pra baixo do anzol sustentando o Bobbin.

Levante sempre o material antes de aparar as sobras 

Produzindo Iscas Duráveis

Normalmente as moscas sofrem uma degradação natural seja pelos choques com galhos, pedras, etc, durante os arremessos, seja pelo próprio desgaste causado pelos ataques dos peixes. Alguns recursos podem ser utilizados para prover mais resistência e durabilidade às iscas permitindo um número maior de utilizações:
  • Sempre que for fixar algum material ao longo da haste do anzol aplique uma camada de cola.
  • Pra maioria das iscas uma "cama" de linha ajuda em muito a evitar que o material gire na hora de ser fixado (antes de fazer a "cama" passe cola na haste).
  • Algumas moscas possuem um Hackle por toda a haste do anzol (Woolly Bugger), reforçar esse hackle com um fio de cobre garante que ele não irá se soltar facilmente, principalmente quando se estiver pescando espécies com dentição mais potente.
  • Atenção redobrada na finalização, os nós devem ser bem executados e travados com uma gota de cola ou cobertos com resina epóxi (eventualmente pode também ser aplicada à cabeça da mosca).
Mais duas práticas que promovem o aumento da percepção do mosqueiro e proporcionam mais qualidade ao atado:

Uma luminária bem posicionada com o foco na isca é fundamental para ressaltar os detalhes.

Use uma placa (papel, EVA ou outro material) como fundo, de tal forma que a isca seja visualizada com contraste pelo atador. Dependendo das cores dos materiais utilizados na mosca essa placa pode ser escura ou clara.


Essas práticas se aplicam à maioria das situações, porém vale lembrar que em alguns casos, deve ser feita uma abordagem diferente, como por exemplo o uso de um anzol distinto (nesse caso um wormhook) que deve ser fixado na morsa de outra maneira.

Um anzol para minhoca deve ser fixado de forma diferente  na morsa
Fonte: http://www.willowford.net 

Neste caso muito provavelmente o atador já não mais será um aprendiz (como eu) e dispensará essas orientações.

Grande Abraço