terça-feira, 27 de agosto de 2013

Na dúvida, Elk Hair Caddis

Todos sabemos que o melhor ponto de partida para a eleger a mosca mais adequada às condições de pesca que se apresentam ao mosqueiro é a observação do local e do que está acontecendo à sua volta. Ler as águas e através de uma atenta observação, tentar identificar que tipo de alimento os peixes estão consumindo. Mas há momentos em que não estão ocorrendo eclosões na superfície, nos arredores do rio ou lago não encontram-se vestígios de insetos aquáticos (como exoesqueletos ou adultos presos em teias de aranha), em suma, não temos nenhum indicativo de quais insetos estão presentes no local. 

 A Caddis ou Sedge 
Fonte: http://www.fcps.edu

Nessas horas em que só a dúvida ecoa pela mente do mosqueiro e a incerteza da escolha da mosca recai sobre ele, o que fazer? Fácil, opte por uma imitação de caddis! Por quê? Eu explico: 

As caddis ou sedges (primos das mariposas e borboletas) são a espécie mais comum de insetos aquáticos encontrados em lagos e rios de todo o mundo e também um dos alimentos mais importantes para os peixes insetívoros. Além desse fato, em comparação com outras espécies de insetos aquáticos (mayflies, stoneflies e midges) a duração de sua fase adulta é muito maior. As caddis vivem em média entre duas semanas e dois meses, contra menos de uma semana das mayflies, uma a três semanas das stoneflies e cinco a dez dias das midges. Esse fato torna as caddis adultas disponíveis por muito mais tempo como alimento para os peixes, logo, se você pretende pescar com mosca seca e não tem idéia de que mosca escolher, opte pela Elk Hair Caddis! 

Elk Hair Caddis, a mosca certa para os momentos incertos

Em se tratando de moscas secas, a Elk Hair Caddis é um dos padrões mais populares e comprovados de todos os tempos. Criado por Al Troth, esse pattern imita tanto um inseto adulto que pousa na água para depositar seus ovos, como um emerger (indivíduo recém emergido advindo da fase de pupa). É relativamente simples de atar e não requer muita prática do atador, bastando que o mesmo esteja atento à proporcionalidade, aspecto importante quando se trata de moscas secas. Depois de todos esses argumentos, não há como não ter algumas na caixa. Então, mãos à obra! 

Material Básico:
  • Anzol Tiemco 100 #14
  • Thread 6/0 Rusty Brown
  • Fio de Cobre (Ultra Wire Copper)
  • Dubbing Tan (Podem ser usadas diversas cores)
  • Brown Saddle Hackle
  • Elk Hair (Natural ou Bleached)



Material Opcional:
  • Penas CDC
  • Pena de Pavão Albino
  • Deer Hair

Passo a Passo:

1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa, reserve um espaço aproximado de 2 vezes o olho do anzol (a partir do olho do anzol) e enrole o fio de atado até o final da parte reta da haste, imediatamente antes da curva. Retorne com o fio pra frente parando onde iniciou.


2º Corte um pedaço de fio de cobre (do tamanho suficiente para enrolar sobre a haste) e prenda-o logo no início da base de fio feita no passo anterior.


3º Cubra o fio de cobre com o thread, até à acurva do anzol, por cima da base feita no passo 1. Deixe o fio parado exatamente nessa posição.


4º Pegue um pequeno punhado de dubbing para formar o corpo da mosca, a quantidade deverá ser suficiente para formar um corpo delgado, porém com formato definido.


5º Aplique o dubing ao fio de atado torcendo o material com os dedos indicador e polegar, distribuindo-o ao longo do thread de maneira uniforme. Se preferir passe uma fina camada de cera própria para atado ou cera de abelha no thread pra ajudar a fixar o material.


6º Enrole o material na haste do anzol, cuidando para não exceder os limites estabelecidos pela base de fio de atado no passo 1. Aplique um número menor de voltas do material nas extremidades moldando o corpo no formato de um grão de arroz.


7º Escolha uma pena saddle para fazer o hackle que possua fibras com comprimento aproximado de uma vez e meia o gap do anzol. Prenda a pena pela extremidade inferior, cortando algumas fibras para facilitar a amarração.


8º A pena deverá ser fixada tomando-se o cuidado de manter sua concavidade voltada para o corpo da mosca (para baixo). Prenda a ponta da pena com poucas voltas do thread, posicionando-o imediatamente a frente do dubbing.


9º Enrole a pena de forma esparsada, no sentido horário, indo em direção à curva do anzol, dando 5 ou 6 voltas em torno da haste, até o ponto onde termina o dubbing. Cuide para que a concavidade da pena permaneça sempre voltada para o corpo da mosca. Um hackle plier (pinça) ajuda bastante a mater o controle da pena.


10º Segure firmemente a pena e enrole o fio de cobre dando uma volta reta, no sentido anti-horário por cima da ponta da pena para fixá-la. A partir daí, enrole o ultra wire, ainda no sentido anti-horário, de forma esparsada, indo na direção do olho do anzol. Tente manter as voltas do fio de cobre entre as voltas da pena, cuidando para que as fibras não fiquem presas sob o fio. Uma boa dica pra evitar prender as fibras sob o fio é usar uma pinça (hackle plier) e movimentar o fio pra frente e para trás a cada volta. Termine com o fio de cobre pra cima, prenda-o com o thread e corte os excessos da pena e do ultra wire bem junto à haste.


11º Corte uma pequena quantidade de Elk Hair (umas 15 fibras são suficientes). Use um pente ou mesmo os dedos para limpar as fibras, removendo os pêlos internos (under fur).


12º Depois de alinhar as pontas com um hair stacker, corte a outra extremidade, em seção reta, deixando o tamanho das fibras ligeiramente maior que tamanho do anzol (do olho até a curva). 


13º Coloque as fibras em cima da haste, posicionando a extremidade cortada exatamente na direção do olho do anzol.


14º Prenda as fibras com duas voltas do fio de atado sem apertar. Faça a primeira volta bem próxima ao hackle e deixe somente a tensão do bobbin pendurado atuar sobre o fio. A segunda volta deverá ser feita deslocando-se o fio no sentido do olho do anzol, novamente, somente o peso do bobin deverá manter o fio tensionado.


15º Continue deslocando o thread em direção ao olho do anzol e faça a terceira volta, quando essa estiver completa aplique tensão ao fio e depois mais duas voltas apertando bem. Essas voltas tensionadas farão com que as fibras se arrepiem um pouco, principalmente a parte que ficou em cima do olho do anzol, formando a cabeça da mosca.


16º Faça o nó de acabamento com o whip finisher ou com uma ferramenta de half hitch.


17º Corte o excesso do thread e aplique uma gotícula de head cement para travar o nó, cuidando para não atingir as fibras.


Variações:

As variantes do pattern procuram seguir a silhueta da mosca, basicamente mantém-se o corpo e a asa, substituindo-se o material, como nessa minúscula versão atada em anzol #20, cujo corpo foi formado por uma pena de pavão albino e o Elk Hair foi substituído por CDC na montagem da asa.

Variante em CDC usada com sucesso na pesca dos lambaris

Outra variante muito popular é a CDC Deer Hair Caddis, que utiliza penas de CDC para formar o corpo da mosca, um delgado hackle também em CDC, além de usar Deer Hair em substituição ao Elk Hair para fazer a asa.

Como trabalhar a isca:

Em se tratando de uma mosca seca, recomenda-se aplicar um pouco de flotante (próprio para moscas secas ou uma pequena quantidade de vaselina em pasta) no corpo da mosca de modo a evitar que ela fique encharcada, antes de colocá-la na água. Caso o corpo seja formado por CDC não há necessidade de flotante. Basicamente trabalha-se esta mosca de duas formas: deixando-a flutuar livremente ao sabor da correnteza (dead drift) ou impondo-lhe recolhimentos curtos fazendo com que a mosca deslize sobre a superfície da água por pequenas distâncias como se estivesse fugindo.

Lembre de Não Esquecer:
  • Não tensione o fio de atado nas primeiras voltas quando estiver prendendo o Elk Hair, a tensão aplicada sem que hajam algumas voltas fixando o material irá arrepiar muito as fibras transformando-o em uma bola.
  • O fio de cobre não adicionará lastro suficiente para que a mosca afunde, a quantidade desse material é mínima, sua função é tornar o hackle mais resistente (especialmente para espécies de peixes com dentição avançada) e fornecer um discreto brilho à mosca. Caso não queira colocá-lo, o ultra wire pode ser substituído por um pedaço de fio de atado.
  • Não exagere na quantidade de fibras de Elk Hair, muitos fios poderão deixar a mosca desequilibrada e sua apresentação ao peixe ficará prejudicada.

Grande Abraço

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Espetacular Woolly Bugger

E se você só pudesse levar uma isca pra pescar, qual isca seria?

Com relativa freqüência, seja em rodas de conversa, fóruns ou em qualquer outra reunião de pescadores essa pergunta é trazida a foco. Surgem então inúmeras explicações (algumas fortemente sustentadas por argumentos científicos), outras pela grande experiência e empirismo dos debatentes para defender as suas escolhas. Na pesca com mosca não é diferente, mas acho que essa pergunta, em se tratando do fly, deveria ser tênuamente modificada para:

E se você só pudesse atar uma mosca pra pescar, qual pattern seria?

É claro que não existe isca tão perfeita que possa ser usada pra pescar desde pequenos lambaris até enormes dourados, mesmo porque o tamanho do anzol não seria adequado, o conjunto (vara/carretilha) não se adaptaria a todas as situações, etc. Portanto quando cito esta mosca, estou me referindo à receita original e suas variantes. Ah, sim... respondendo à pergunta, sem nenhum resquício de dúvidas, com toda minha convicção digo: Woolly Bugger.

A Espetacular Woolly Bugger

Essa é provavelmente a mosca (streamer ou ninfa como queiram classificá-la) mais conhecida e utilizada em todo o mundo. Não só por sua eficiência comprovada (tanto em água doce quanto em água salgada), mas também por ser versátil a ponto de imitar inúmeras espécies de animais desde sanguessugas, vermes, lagostins, girinos, ninfas de libélulas, pequenos peixes e uma enorme variedade de outros seres. Devido a sua popularidade e versatilidade aliada à simplicidade da montagem, é utilizada em diversas situações e para inúmeras finalidades, quase sempre para cada condição de pesca que o mosqueiro encontra, uma de suas incontáveis variações (receitas) se aplica muito bem. 

Neste passo a passo tentarei reproduzir a receita clássica (se é que existe uma) e apresentar algumas variações que julgo interessantes. Vamos a ela!

Material Básico:
  • Anzol Tiemco 5262 #10
  • Penas Marabou Olive
  • Chenille Olive
  • Penas Saddle Olive
  • Lead Wire
  • Ultra Wire
  • Thread 6/0 Olive
    Material Opcional:
    • Bead Head ou Cone Head
    • Rubber Legs
    • Dubbing
    • Brilho (Flashabou, Angel Hair, Krystal Flash, etc)
      Passo a Passo:

      1º Coloque um anzol (com a farpa amassada) na morsa e enrole de 10 a 14 voltas de fio de chumbo (lead wire). Comprima as voltas e posicione a "mola" que se formou no centro da haste para que a isca afunde de modo equilibrado, não deixe a "mola" muito para frente ou muito pra trás.


      2º Cubra o lead wire com o fio de atado passando por entre as voltas, na frente e atrás. Leve o thread até o final da haste onde se inicia a curva do anzol.  


      3º Separe um tufo de penas de marabou, para um controle mais fácil das plumas que são extremamente flexíveis, mergulhe o tufo em um copo d'água, com as fibras molhadas é muito mais fácil lidar com o marabou.


      4º A proporção da cauda deverá ter como base o mesmo tamanho da haste do anzol. Poderá ser ligeiramente maior ou menor, mas via de regra, utilize o mesmo tamanho da haste.


      5º Envolva o tufo de penas de marabou com algumas voltas do fio de atado. Corte o excesso.


      6º Enrole o fio de atado por sobre o excedente das fibras das penas de marabou e retorne com o thread para próximo à curva do anzol. 


      7º Ate o fio de cobre cobrindo com o thread e deixando bem firme. O fio de cobre será usado no final do atado para reforçar o hackle. 


      8º Retire as fibras da ponta do chenille, expondo sua "alma". Dessa forma é mais fácil sua fixação.


      9º Ate o chenille amarrando o cordão central com algumas voltas do thread. 


      10º Enrole o fio de atado por todo o corpo da mosca, até aproximadamente um olho de distância do olho do anzol. 


      11º Enrole o chenille por toda a haste do anzol, uma volta bem próxima à outra até chegar ao mesmo ponto do passo anterior (um olho de distância do olho do anzol). Fixe com o fio de atado e corte o excesso.


      12º Escolha uma pena de saddle que possua fibras com o comprimento aproximado de 2 vezes o tamanho do gap do anzol. Retire algumas fibras de um dos lados da pena para facilitar sua fixação. Posicione a pena de tal forma que a parte côncava fique virada para você.


      13º Fixe a pena enrolando o fio de atado sobre  a raque (parte central) até que as fibras estejam coladas ao chenille.


      14º Enrole a pena de saddle no sentido horário, de forma espiralada, deixando um espaçamento de alguns milímetros entre cada volta. Use um hackle plier para ter um controle melhor da pena.


      15º Segure a ponta da pena e comece a enrolar o fio de cobre por cima do hackle só que dessa vez no sentido anti-horário. Tente guiar o fio por entre os intervalos deixados pela pena. A cada volta, movimente o ultra wire pra frente e para trás, isso ajudará a evitar que as fibras da pena de saddle fiquem presas sob o fio de cobre.


      16º Leve o fio de cobre até o olho do anzol, fixe com o thread e corte o excedente.


      17º Faça a cabeça da mosca cobrindo aquele segmento que havia ficado separado (do tamanho de um olho de anzol) com algumas voltas do fio de atado em formato de um cone. Finalize com um nó de acabamento.


      18º Aplique uma gota de head cement para travar o nó de acabamento e finalizar a mosca.

       

      Variações:

      Existem incontáveis variantes da Woolly Bugger, algumas modificam pouco a receita original e acrescentam ou alteram pequenos detalhes, como é o caso da Big Eyed Bugger, variante que acrescenta algumas fibras de brilho na cauda e grandes olhos na cabeça.


      Big Eyed Bugger variação criada por Oliver Edward


      Já algumas outras variantes modificam de tal forma a receita original que a primeira vista podemos imaginar ser outra mosca, mas se analisarmos cuidadosamente podemos encontrar nessas variantes os mesmos elementos básicos da receita original. A Autumn Splendor, criada por Tim Heng, além de acrescentar o cone head e o brilho na cauda, apresenta rubber legs como mais um atrativo e como forma de despertar mais interesse nos peixes.

      Autumn Splendor, criação de Tim Heng, na leitura de Charlie Craven

      Dennis Collier modificou a receita original trocando o chenille por ice dub na cor light yellow, também acrescentou um cone head e um hackle extra logo atrás (concentrado na cabeça), além do hackle distribuído pelo corpo da mosca.

      Vanilla Ice Bugger, variante de Dennis Collier, atada por Charlie Craven

      Essa não é propriamente uma variante da Woolly Bugger, mas se assemelha em muito ao seu pattern, trata-se de uma variante de outra mosca, a Blood Worm, que uso com sucesso na pesca de lambaris.

      Blood Worms usadas com sucesso na pesca dos pequenos valentes 

      Como trabalhar a isca:

      Devido ao grande número de variantes, com mais ou menos lastro, cone heads e rubber legs, o trabalho dessa mosca pode mudar um pouco em função das modificações que lhes foram aplicadas. Em se tratando da receita original é uma mosca que afunda com relativa velocidade, logo via de regra deve-se aguardar alguns segundos após o arremesso para então trabalhar a isca de duas formas básicas: com pequenos toques intercalados por breves pausas e através de um recolhimento lento e contínuo.

      Lembre de Não Esquecer:
      • O tempo de afundamento da mosca vai depender da profundidade que o peixe está. Varie a contagem dos segundos após o arremesso até encontrar o tempo ideal.
      • Antes de fazer o primeiro arremesso, deixe a mosca dentro d'água por alguns instantes até que o chenille fique encharcado, isso ajudará no seu afundamento.
      • O número de voltas com fio de chumbo e a adição de um bead head farão a mosca afundar mais rapidamente, regule a quantidade de lastro de acordo com as condições de pesca locais.
      • O deslocamento do lastro para a frente da mosca lhe conferirá um movimento de jig, que em determinadas condições pode ser muito efetivo. 
      Grande Abraço

      segunda-feira, 17 de junho de 2013

      Acertando os Pequenos na Mosca

      Acho que não existe representante mais autêntico da pesca no Brasil que esse pequeno porém muito valente e voraz peixinho, o lambari (ou piaba ou piava, como também é conhecido). Por toda parte, pode-se facilmente encontrar um bom número de pescadores, esportivos ou não que já travaram divertidas batalhas com esses diminutos guerreiros. É bastante comum ver em pequenos rios, represas, açudes e até em modestos lagos, avôs e netos, pais e filhos, amigos, enfim diferentes grupos de pescadores munidos com o mais tradicional dos equipamentos: vara de bambu e uma lata de minhocas compartilhando agradáveis momentos sacando da água essas pequenas jóias prateadas.

      E as qualidades desses pequenos notáveis se estendem também para outras modalidades, inclusive a que mais nos interessa, a pesca com mosca. Fisgar lambaris com equipamento de Fly não só é possível como também pode ser surpreendentemente prazeroso. O lambari é um devorador por natureza, é extremamente veloz e ataca vigorosamente qualquer coisa que se pareça com alimento, tanto na superfície quanto em águas mais profundas, o que o torna perfeito para a pesca com moscas secas, molhadas e ninfas.

      Eles estão presentes tanto nos poços quanto nas partes mais rasas

      Dono de uma dentição privilegiada, é capaz de arrancar pedaços do que estiver lhe servindo de alimento (minhocas, massa, etc) e acabar rapidamente com as iscas que lhe são apresentadas com poucas mordidas. O mosqueiro que se aventurar a enfrentar esses pequenos guerreiros precisa estar munido de um boa quantidade de moscas, pois estas se desfarão em pouco tempo.  Na hora de atar iscas para lambaris, é recomendável adicionar reforço para torná-las mais resistentes a seus afiados dentes. 

      Em função da espécie de lambari (existe um grande número delas), o tamanho da boca pode variar a tal ponto que exija além da tradicional escolha da numeração dos anzóis, uma adequação da mosca quanto a seu formato. A comparação abaixo, muito bem observada pelo mestre Gregório (exímio conhecedor da pesca de lambari com fly), mostra claramente que o mesmo anzol (inclusive a mesma numeração) pode produzir moscas com áreas (em uma visão 2D) bem diferentes, e que a escolha do formato mais apropriado pode favorecer de modo significativo o aumento do número de fisgadas.

      Moscas atadas no mesmo anzol possuem áreas diferentes

      Nas oportunidades que tive de enfrentar os pequenos valentes, testei um bom número de diferentes iscas, baseado nas informações que havia colhido, atei somente moscas sem cauda (com excessão de uma variante da Blood Worm cuja cauda de Marabou é bastante flexível), todas produziram boas fisgadas. Porém, não sei se por conta das condições locais onde fiz as pescarias, destaco duas moscas (uma seca e uma ninfa) que em minha opinião se mostraram mais eficientes. 

      A primeira (minha escolha para pesca na superfície), se baseia no padrão sugerido pelo mestre Gregório, na verdade trata-se de uma variante da famosa F Fly. Nessa montagem, usei um anzol Tiemco 100 #20 (pois nos locais onde estive os lambaris são bem pequenos), nele ao invés do dubbing foi enrolado uma pena de pavão albino para fazer o corpo da mosca, para a asa usei fibras de pena de CDC viradas para trás (como em uma asa de caddis), finalizei a cabeça da mosca usando somente o fio de atado.


      Mosca seca baseada no padrão do mestre Gregório e na F Fly

      A segunda que se mostrou mais produtiva, sempre que queria pescar abaixo da superfície, foi uma variação da Blood Worm. Nesta montagem, usei um anzol Tiemco 200R #20, a cauda foi feita com fibras de Marabou, para o corpo da mosca usei somente fio de atado sobreposto em camadas até chegar a um volume adequado, pra finalizar um generoso colar feito com pena de pavão albino.

      Ninfa baseada no padrão Blood Worm

      Os outros padrões que experimentei foram: Zebra Midge, Brassie, Midge Emerger (usando micro foam para fazer o corpo), Tunkwanamid (substituindo o original Ostrich Herl do hackle por Peacock Herl) e IOBO Humpy. Todos esses padrões sem exceção produziram bons resultados.

      Algumas outras opções para os Pequenos Valentes 

      A pesca que fiz foi vadeando em rios em sopés de serras, com fundo de seixos e areia, relativamente rasos (até 1 metro de profundidade) e razoavelmente largos, algo em torno de 10 metros. Nesses locais, o lambari habita desde as áreas mais profundas (poços e canais) até às partes mais rasas com menos de um palmo de profundidade em determinados pontos. A maioria das ações foi produzida arremessando-se nas margens, onde é mais raso, e em trechos nos quais a correnteza não é muito forte, parece que eles preferem as águas mais tranquilas. Os ataques se deram segundos após a isca cair na água, devido à sua visão aguçada e velocidade, basta a mosca (mesmo as ninfas) tocar a superfície para que se inicie a corrida pela primeira bocada.

      Moscas lastreadas (com fio de cobre ou bead head) em partes mais fundas resultaram em capturas de indivíduos maiores, nas partes mais rasas os menores e mais ligeiros não dão chance para os de maior porte ganhando a corrida de disparada, ainda mais quando se usa mosca seca. A sutileza da fisgada normalmente acontece em águas mais calmas, à medida em que a correnteza fica mais severa, as investidas exigem mais esforço dos peixes produzindo ataques mais vigorosos. 

      Os lambaris atacam vigorosamente as ninfas

      Capturá-los com mosca seca é ainda mais recompensador, pois identifica-se o momento da fisgada com mais precisão e as explosões produzidas pelos ataques na superfície da água adicionam beleza plástica a cada ação. 

      E também as secas

      É importante lembrar que:
      • Em todas as iscas os anzóis estavam com as farpas amassadas, de forma alguma isso prejudicou as capturas e de quebra facilitou muito a liberação dos peixes (foram todos liberados).
      • Os ataques continuaram (apesar da eficiência das fisgadas não ter sido igual), mesmo usando iscas em anzóis maiores (#16), os pequenos são tão gulosos que por vezes é difícil acreditar que conseguem abocanhar moscas tão grandes.
      • É sempre bom ter à mão uma pequena tesoura, caso o mosqueiro faça a opção por iscas com cauda, postes e asas e haja a necessidade de desbastá-los de modo a facilitar as fisgadas.

      Grande Abraço

      segunda-feira, 20 de maio de 2013

      Rubber Popper e a Câmara Secreta

      Espero que o criador da isca (que na verdade se chama Ghost Popper), o mestre Jay "Fishy" Fullum, me perdoe pelo talvez inapropriado trocadilho, mas não encontrei título melhor pra descrever o passo a passo dessa simples e notável mosca. A idéia genial apresentada aqui mais uma vez ressalta a criatividade e a admirável capacidade de observação que para algumas pessoas, como o mestre Jay, é um ato natural e corriqueiro ao passo que para outros (como eu) é uma duríssima tarefa. Vislumbrar que o mais improvável item em uma loja de material de construção, artesanato ou papelaria tem enorme potencial para se tornar uma mosca eficaz e pegar peixe é para poucos.

      O principal elemento na confecção desta mosca é o Weatherseal ou Fita para Vedação, um semi tubo de borracha oca que possui na face reta uma superfície adesiva. Esse material é utilizado para vedar portas e janelas, protegendo contra vibrações, entrada de poeira, umidade e também usada como isolante térmico. Existe no mercado em diversas cores e formatos, mas esse em especial possui um perfil muito interessante, na forma de uma letra "D", perfeito quando dobrado e sobreposto a si mesmo para a montagem do corpo da mosca.

      Detalhe (à direita) do perfil em forma de "D" da Fita para Vedação ou Weatherseal


      Abaixo, em corte transversal, podemos ver com clareza que o corpo da isca foi amarrada em 2 pontos, estrangulando os dois semi-tubos sobrepostos (pela face reta), formando 2 câmaras de ar que garantirão a flutuabilidade da mosca. A parte de baixo do corpo do popper, onde aparece a haste do anzol (revestida por chenille), serve para a ancoragem do material. Ao final uma pequena quantidade de epóxi pode ser aplicada na "boca" da mosca selando definitivamente as câmaras.

      Seção transversal mostrando a Câmara Secreta (na verdade duas)

      Material Básico:
      • Fita para Vedação (Weatherseal)
      • Anzol wide gap de haste longa reta (nesta montagem utilizei um Daiichi Stinger #2)
      • Thread 6/0 (branco ou monofilamento para atado)
      • Cola de cianoacrilato
      • Chenille (qualquer cor)
      • Olhos de Boneca
      • Sili legs (ou perninhas de borracha)
      • Unique Hair Branco (ou outra fibra qualquer para a cauda)



      Material Opcional:

      • Epóxi (para selar as câmaras)
      • Angel Hair (ou outro brilho para a cauda)
      • Marcador permanente, esmalte ou tinta acrílica


      Passo a Passo:

      1º Corte um pedaço da fita para vedação que seja correspondente a duas vezes o comprimento da haste do anzol. Faça uma marcação na parte curva da fita exatamente no meio do pedaço.



      2º Prenda o anzol (com a farpa já amassada) na morsa, faça uma base com o fio de atado, passe cola, prenda um pedaço de chenille na haste na mesma direção da ponta do anzol enrolando até o olho (deixe um espaço livre correspondente a aproximadamente 2 vezes o olho do anzol).


      3º Enfie o anzol na cavidade da fita para vedação de tal forma que a ponta perfure e saia exatamente na marcação feita anteriormente (metade do comprimento).


      4º Passe cola no chenille (se preferir pode usar epóxi) e empurre o anzol até que a parte reta da haste esteja quase saindo pelo furo. Note que o espaço livre próximo ao olho do anzol deverá ficar fora da cavidade da fita para vedação.


      5º Depois de seco, coloque o anzol novamente na morsa com a face reta da fita para vedação voltada para cima. Retire a proteção da face reta, expondo a superfície adesiva, posicione de 3 a 4 perninhas mais ou menos no meio da haste do anzol (25% do comprimento da fita para vedação) aplique uma gota de cola para fixar.


      6º Passe uma camada de cola na face reta e dobre a ponta de trás sobrepondo a parte que está fixada no anzol, cuidando para que as pontas fiquem perfeitamente alinhadas (apesar da fita para vedação possuir uma superfície adesiva, esta não me pareceu suficientemente aderente e apliquei uma camada de cola extra para garantir que tudo se manterá no lugar). Aplique uma gota de cola (ou epóxi) no furo onde saiu o anzol  para vedar a parte de baixo e evitar eventual entrada de água.


      7º Faça duas amarrações com o fio de atado, a primeira imediatamente na frente das perninhas e segunda na metade da parte delimitada pela primeira amarração e a ponta da fita para vedação. Aperte bem o fio de atado para estrangular a fita e formar as câmaras de ar.


      8º Aplique uma gota de cola de cada lado, em cima da segunda amarração feita com o fio de atado (a mais próxima do olho do anzol), prendendo os olhos de boneca na cabeça da mosca.


      9º Separe um tufo de Unique Hair (ou a fibra de sua escolha) com aproximadamente o dobro do comprimento do anzol, prenda-o pela metade imediatamente atrás do ponto onde está fixada a fita para vedação, dobre a outra parte por cima e amarre para formar a cauda do popper (nesse ponto pode-se acrescentar o brilho). Arremate com o nó de acabamento de sua preferência e aplique uma gota de colar para fixar bem.


      10º Coloque a mosca na posição vertical com a cabeça virada para cima e preencha as duas cavidades das pontas da fita para vedação (a inferior e a superior) com epóxi de forma a selar definitivamente o corpo do popper. Espere secar e a mosca estará pronta!


      Variações:

      Pode-se adicionar um pouco de cor com um marcador permanente, esmalte ou tinta acrílica, produzindo-se padrões com combinações de cores que sejam atrativas aos peixes de sua região. Mesmo para o padrão branco, recomendo pintar a parte da boca com um tom avermelhado de forma a torná-lo mais chamativo.


      Padrão branco (Ghost) e Variação Colorida


      Como trabalhar a isca:

      Lance a mosca e tracione com pequenos recolhimentos de linha intercalados com breves pausas. A velocidade irá depender da atividade dos peixes, via de regra quando estão mais ativos pode-se trabalhar de forma mais rápida. Se estiverem letárgicos diminua o ritmo.

      Lembre de Não Esquecer:
      • Essa montagem produz uma mosca com corpo volumoso tornando praticamente obrigatório o uso de um anzol wide gap (podem ser utilizados anzóis com outros formatos de abertura, desde que estas sejam grandes).
      • Além de outros tipos de fibras sintéticas, a cauda pode ser confeccionada com marabou, bucktail, fibras de pena de avestruz ou qualquer outro material que produza uma boa vibração.


      Grande Abraço