sexta-feira, 1 de abril de 2016

Bicho Preto Esquentado (Cabeça Quente)


Esta é sem dúvida alguma, uma mosca que nunca pode faltar na caixa de qualquer pescador que intente fisgar peixes insetívoros, é uma unanimidade entre os mosqueiros que o famoso bicho preto é um padrão dos mais versáteis e eficazes em diversas situações de pesca. Aliado a uma relativa facilidade de montagem, não é de se espantar que ela seja usada em várias pescarias com sucesso garantido e satisfação plena. 

Há quem defenda que o bicho preto não é propriamente uma mosca (padrão), no sentido em que não há uma receita de fato e que na verdade trata-se de uma generalização, em outras palavras, qualquer mosca que se assemelhe a ela e que em sua montagem seja empregado material de cor preta, poderia ser chamada de bicho preto. Por conta disso, quero deixar claro que não existe consenso quanto à receita original (se é que ela existe), nem sobre os materiais empregados, proporções, etc. O que apresento aqui, apesar de não ser nada original, é apenas uma leitura (dentre as diversas possíveis) dessa excelente mosca.

Bichos Pretos "Esquentados" e de Cabeça Branca

Apesar da silhueta e aspecto geral ser bem próximo a de uma woolly bugger (muitos a consideram uma de suas variantes), alguns detalhes diferenciam esses dois excelentes padrões: o bicho preto não é montado com um hackle que envolva todo o corpo (desde a cauda até a cabeça), a pena usada para o colar apresenta maior maciez e se aproxima muito mais de um colar de wet (soft hackle), o anzol utilizado via de regra tem a haste mais curta e quase sempre é montada com um beadhead (não vi ainda nenhuma montagem sem beadhead). Essas diferenças, lhe conferem além de características de streamers e ninfas (herdadas da woolly bugger), também alguns aspectos de wets. É realmente uma mosca surpreendente, apesar de simples.

A intenção é imitar uma ninfa de donzelinha (damselfly), mas esse é um padrão que pode, dependendo da situação (águas turvas, correntezas, trabalho mais ou menos veloz, adição de perninhas de borracha, brilho, etc) representar também outros insetos como stoneflies, mayflies, pequenos peixes, girinos, enfim outros seres vivos que sirvam de alimento aos peixes que se planeja capturar.


Ninfa de damselfly (donzelinha) 

A versão proposta aqui, ainda apresenta um diferencial, não encontrado nos insetos que intenta representar, mas que comprovadamente estimula os peixes ao ataque e que é utilizado em outras diversas receitas de moscas, o beadhead laranja quente (hot orange). O batismo dessa variante, bicho preto "esquentado" tem origem na adição do beadhead. Vamos à morsa!

Material Básico:
  • Anzol para ninfas #14 - #10 (2x heavy, 1x long), nessa montagem, Partridge Stronghold Nymph #14
  • Fio de atado Veevus 10/0, preto
  • Bead Head de latão, laranja quente (hot orange)
  • Fio de chumbo 0.20
  • Tinsel oval pequeno, dourado
  • Pena de marabou, preta
  • Pena das costas da galinha, preta


Passo a Passo:

1º Pegue um anzol, amasse a farpa, coloque nele o beadhead pelo furo menor e prenda-o na morsa.


2º Enrole na haste do anzol o fio de chumbo, dando de 10 a 12 voltas. Corte as pontas e empurre a "mola" formada para que se encaixe no furo mais largo do beadhead.



3º Aplique o fio de atado por cima do chumbo e sobre o restante da parte reta da haste do anzol. Logo após o enrolado de chumbo, faça um pequeno cone com o thread para suavizar o afinamento do corpo da mosca.



4º Pegue uma pena de marabou, estique as fibras pra trás e segure com os dedos. Fixe a pena logo após o cone de fio de atado, na parte de cima da haste, formando uma cauda com comprimento igual ao do anzol.



5º Prenda um pedaço de tinsel na lateral da base da cauda, aplique algumas voltas do fio de atado e adiante-o até posicioná-lo atrás do beadhead.



6º Torça a pena de marabou para que forme uma "meada" com as cerdas e enrole-a sobre a haste do anzol até o beadhead, fixe com algumas voltas do fio de atado, puxe o excedente da pena para trás, aplique mais algumas voltas do thread e corte o excesso da pena.



7º Enrole o tinsel de forma espaçada sobre o corpo da mosca para formar a segmentação e reforçar a amarração do corpo. O tinsel deverá ser enrolado no sentido contrário da pena de marabou. Prenda-o com o fio de atado, logo atrás do beadhead e corte o excesso.



8º Separe uma pena das costas de uma galinha, retirando as plumas inferiores mais macias. Escolha uma pena que possua cerdas com comprimento de 1,5 a 2 vezes o gap do anzol.



9º Fixe a pena na parte superior do corpo da mosca, logo atrás do beadhead, com a face brillhosa voltada para baixo.



10º Com o auxílio de um hackle pliers, aplique de duas a três voltas sobre o corpo da mosca, formando um colar em seu entorno. Fixe o hackle com o fio de atado e faça o nó de acabamento, corte o excesso da pena e aplique uma gota de cola pra fixar.



Variantes:

As variações podem ser as mais diversas possíveis, desde a troca completa das cores, como por exemplo o oliva (bicho verde), até as que somente alteram pequenos detalhes como por exemplo usar um beadhead branco e um tinsel prateado. Sempre levando-se em conta que o intuito é imitar uma espécie de donzelinha que viva na região onde se vai pescar, podendo acrescentar algum detalhe mais chamativo, como o beadhead laranja que funciona como gatilho pro ataque.

Como trabalhar a isca:

A maneira mais produtiva de se usar essa mosca é arremessá-la rio acima e trabalhar como uma ninfa até que ela passe por você, a partir daí pode-se trabalhá-la como uma mosca molhada (wet) deixando que derive e faça um longo swing, quando então pode ser tracionada como um streamer rio acima em recolhimentos mais longos, mais curtos ou alternado-se a velocidade e o tanto de linha que se recolhe.   


O irresistível bicho preto esquentado mostrando sua eficácia

Grande Abraço

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

The Kite

Em recente pesquisa por padrões parachute, buscando alguma variação promissora, me deparei com esta interessante história e depois de lê-la não pude me conter para atar algumas moscas e experimentá-las na prática. O texto mencionava uma reportagem da Freshwater Fishing Magazine de Novembro/Dezembro de 2009, na qual Mick Hall e Philip Bailey descreviam o surgimento de uma variante da famosa Kite's Imperial, um padrão consagrado do não menos famoso Oliver Kite e dizia basicamente o seguinte:

Oliver Kite, galês de nascimento, mudou-se para a Inglaterra na adolescência e após ter servido ao exército britânico, fixou residência em solo inglês. Coincidentemente, ou por um desses caprichos da natureza, passou a viver próximo a Frank Sawyer, se tornaram amigos e companheiros de pesca. A influência de Sawyer tanto no estilo de pesca quanto nas moscas usadas por Kite é notória para quem quer que leia seus escritos. E foi justamente a leitura de um dos livros de Kite - Nymph Fishing in Practice, que chamou a atenção e despertou o interesse de Philip Bailey sobre a famosa mosca Kite's Imperial.


The Kite, um excelente padrão de parachute

Oliver Kite era um minimalista e considerava que a apresentação era mais importante do que a cor ou o formato da mosca (fidelidade ao inseto real). Depois de ter publicado 6 receitas de moscas secas de sua autoria, com o tempo passou a acreditar que apenas uma, a Imperial, era capaz de produzir capturas não importando de qual inseto real os peixes estivessem se alimentando. Um outro aspecto que se tornou marca registrada de suas moscas era o padrão anzol nú, uma quantidade significativamente reduzida de material sobre a haste do anzol, recoberta por algumas voltas de fio de cobre fino (tão fino e em tão pouca quantidade, que não comprometeria a flutuabilidade de uma mosca seca). Ele concentrava suas pescarias nos chalk streams (rios que nascem em montanhas de rocha calcárea) da Inglaterra, raramente se aventurando a locais mais distantes.


O padrão minimalista de Oliver Kite está bem representado no corpo esguio da Kite

Quando Philip Bailey mudou-se para a Inglaterra, influenciado por Oliver Kite, usava com frequência a Imperial em suas pescarias nos rios do norte do país. A performance da mosca era boa, mas não se comparava à produtividade das parachutes e spiders, pois os rios do norte da Inglaterra passavam por períodos de cheias e em alguns trechos isso produzia águas mais rápidas e fortes corredeiras, e nessa situação as Imperial afundavam. Bailey estava convencido de que o padrão de Kite era efetivo em muitas situações, inclusive em momentos que outras moscas falhavam, porém em águas mais rápidas o desempenho não era satisfatório. Isso o motivou a adaptar a Imperial para um padrão parachute, e foi assim que surgiu a Kite.

Não existe uma descrição muito clara dos passos necessários para o atado da Imperial, o que se sabe é que por conta da tendência nude hook, tudo era pensado para que o resultado final fosse uma mosca delgada. E apesar da descrição detalhada de montagem publicada por Philip Bailey, experimentei algumas maneiras diferentes de construção da Kite, a que descrevo abaixo foi a que produziu o melhor resultado, em minha opinião, levando-se em consideração os fundamentos de Oliver Kite. Fiz duas substituições na lista de materiais: a primeira foi o uso das fibras de pena de avestruz, no lugar das fibras de pena de Blue Heron (Garça Azul). A segunda foi a troca do fio de cobre por tinsel oval dourado, pois seguindo o objetivo de atar uma mosca que não afunde, achei por bem, mesmo o fio de cobre sendo muito fino, retirar qualquer peso adicional. Bom, vamos à montagem da Kite.


Material Básico:
  • Anzol Partridge Capitain Hamilton #12
  • Fio de Atado Veevus Cinza 10/0
  • Polyyarn Branco
  • Tinsel Oval Fino Dourado
  • Pena de Avestruz
  • Fio de Seda Roxo
  • Pena de Galo (Saddle) Marrom
  • Pena de Galo (Hackle) Marrom


Passo a Passo:

1º Coloque um anzol com a farpa amassada na morsa e faça uma pequena base de linha para ancorar o poste de polyyarn, comece a prender o fio de atado no ponto que representa 25% do comprimento da haste, a partir do olho do anzol. Dê umas 5 ou 6 voltas em direção à curva do anzol e retorne ao ponto inicial.


2º Selecione um tufo de polyyarn, dobre ao meio, envolvendo o fio de atado e prenda na parte de cima da haste com 2 ou três voltas do thread. 


Em seguida, puxe as duas metades do tufo para cima e aplique algumas voltas com o fio de atado para formar a base do poste. Pode-se aplicar uma gotícula de cola na base para fixá-lo em definitivo.


4º Logo atrás do poste, prenda o fio de seda roxo e leve a amarração até à curva do anzol.


5º Selecione de 10 a 12 fibras de uma pena das costas de galo e prenda no ponto onde o fio de atado está, bastam 2 a 3 voltas.


6º No mesmo ponto, fixe um pedaço de tinsel e em seguida adiante o fio de atado até a frente da base do poste. Faça uma alça com o thread e aplique mais duas ou três volta na haste.


7º Na frente do poste, fixe 2 fibras de pena de avestruz, voltadas para a parte de trás do anzol.


8º Enrole o fio de seda em volta da haste até alcançar o poste, continue enrolando na frente do poste, fixe-o com o fio de atado e corte o excesso.


9º Corte uma das pontas da alça do fio de atado, em sua volta torça as duas fibras da pena de avestruz, como se fosse uma corda.


10º  Enrole as fibras em direção à curva do anzol, até à base da cauda de forma espaçada.


11º Mantenha as fibras tensionadas e no sentido contrário, enrole o tinsel sobre as fibras da pena de avestruz, também de forma espaçada até à frente do poste. Prenda o tinsel com algumas voltas do fio de atado e corte o excesso.


12º Fixe a pena de galo na base do poste com algumas voltas do fio de atado, cuidando para que a parte brilhosa da pena fique voltada para baixo. Levante a pena segurando-a junto com o poste enquanto aplica algumas volta do fio de atado, enrolando o thread para cima, até atingir aproximadamente o tamanho de 1/4 do comprimento da haste. retorne com o fio até a base do poste, reforçando a amarração.


13º Enrole a pena em volta do poste, uma volta colada à outra, de cima para baixo, até atingir a base do poste. Puxe a pena para baixo, em ângulo reto com a haste do anzol e fixe-a com duas ou três voltas as do fio de atado.


14º Aplique o nó de acabamento em volta do poste, corte o excesso da pena, o fio de atado e pingue uma micro gota de cola pra finalizar.


15º Corte o excedente do poste para que tenha aproximadamente o mesmo tamanho da haste do anzol.


Como trabalhar a isca:

Assim como a maioria das moscas secas, a melhor maneira de trabalhar essa mosca é arremessá-la rio acima e acompanhar atentamente sua descida, com a linha quase esticada e esperar o ataque. Uma pequena quantidade de flotante pode ser aplicado na mosca para que fique impermeabilizada e melhore sua flutuação evitando o encharcamento dos materiais que a revestem.

Lembre de Não Esquecer:

Sempre tenha em mente que o objetivo final é produzir uma mosca com o corpo delgado, sem tórax aparente, mantendo o mesmo volume desde a cauda até a cabeça da mosca. Para tanto, use um fio de atado fino e economize no número de voltas para prender os materiais. Você irá se surpreender quando notar que é possível diminuir muito o número de voltas de fio de atado que normalmente usamos.

E pra quem acha que essa mosca não pega peixe, pois afinal da contas não existem insetos com essa coloração na natureza, está aí a prova.



Grande Abraço

domingo, 20 de setembro de 2015

Jazzer Buzzers

Eles estão presentes nos quatro cantos do mundo zunindo nos ouvidos dos habitantes de todos os continentes do planeta. São comumente chamados de moscas verdadeiras (true flies) pois a "mosca doméstica" pertence a esse grupo de insetos, facilmente identificados quando adultos, apresentam 2 pares de asas (que dão origem ao nome da ordem). Em contrapartida as larvas apresentam uma variação morfológica tão grande que não existem características que as diferenciem das larvas de outras ordens de insetos. Os dípteros tem ciclo de vida completo (ovo, larva, pupa e adulto), devido à grande quantidade de indivíduos, desde o estágio de larva até o adulto (incluindo o emergente) são uma importante fonte de proteína para muitas espécies de peixes (principalmente para alevinos, devido a seu tamanho diminuto) e juntamente com os tricópteros, ephemerópteros e plecópteros são as ordens de insetos mais relevantes para a pesca com mosca. 



Pertencem a uma das maiores ordens de insetos contando com mais de 150 mil espécies classificadas em cerca de 10 mil gêneros, de 188 famílias diferentes, dentre as quais pode-se destacar uma em especial, a Chironomidae. Com larga distribuição mundial podem ser encontrados desde o Himalaia a mais de 4.500 metros de altura, até profundidades de mais de 1.600 metros, são umas das poucas famílias de insetos que conseguem habitar o mar em sua zona bêntica, pode-se afirmar que o único habitat inexplorado por essa família é o mar aberto. Alguns gêneros são muito rústicos e resistentes podendo sobreviver a condições bastante adversas, por isso são importantes bioindicadores, em ambientes muito poluídos por matéria orgânica e com pouco oxigênio dissolvido, as larvas de Chironomidae podem ser os únicos macroorganismos a sobreviver. 


Os padrões que intentam imitar uma larva e/ou pupa de Chironomidae, popularmente conhecidos como Buzzers, começaram a se tornar populares por volta dos anos 20, acredita-se que seu sucesso se deu devido a serem moscas fáceis de se atar, poder serem usadas praticamente em qualquer lugar do mundo por conta da infinidade de espécies e porque eclodem o ano todo. Depois de ficarem famosos, aos poucos os padrões de wets se tornaram a preferência dos mosqueiros e a popularidade dos Buzzers diminuiu. Alguns anos depois, por volta da década de 60, com o surgimento de povoamentos e criações comerciais de peixes em águas paradas (lagos e reservatórios) surgiu uma nova onda de interesse nos Buzzers e a partir daí esses padrões se mantiveram populares até os dias de hoje. Os padrões mais modernos recebem acabamento em resina ou verniz o que além de conferir-lhes maior durabilidade, acrescenta beleza ao atado atraindo tanto peixe como pescador.


Dentre os estágios metamórficos da Chironomidae, o mais importante é o da pupa, pois é neste estágio que ficam mais expostas (muitas larvas se refugiam e poucas nadam livremente e o estágio emergente é bem rápido), logo o mais indicado é focar o atado no estágio de pupa que é o que mais provoca ataques. Existem centenas de receitas e padrões, abaixo alguns exemplos:


Suspender Buzzer

Quill Buzzer

Hot Spot Buzzer

Especial de Natal (Xmas Buzzer)

Um dos padrões mais antigos e simples, o Blagdon Buzzer, data da década de 20 (1920s) e existem indícios de que tenha sido o primeiro buzzer. Atribui-se a autoria dessa mosca ao Dr. Howard Alexander Bell. Acredita-se que o padrão tenha surgido em função das observações que o Dr. Bell fazia do conteúdo dos intestinos dos peixes capturados por ele no Lago Blagdon. Desde então, até os dias de hoje, é um padrão eficiente, amplamente usado por diversos mosqueiros. Sendo assim, vamos a seu passo a passo.


Material Básico:
  • Anzol Partridge Captain Hamiton Wet Fly #14
  • Fio de Atado Ultra Thread 140 Denier Black
  • UNI French Oval Tinsel Silver
  • Poly Yarn White

Passo a Passo:

1º Coloque um anzol com a farpa amassada na morsa e faça uma base de linha até a metade da curva.



2º Prenda o tinsel e com o fio de atado molde o corpo, que deverá ser delgado, porém apresentar certo volume (cerca de 3 a 4 vezes a espessura da haste).




3º Enrole o tinsel de forma espaçada em direção ao olho do anzol, fie com 2 voltas de fio de atado e corte o excesso.



4º Nesse ponto, prenda um tufo de Poly Yarn tomando cuidado para que fique exatamente sobre a haste.


5º Prenda o Poly Yarn, corte o excesso que estava para frente e como thread faça a cabeça da mosca, mais volumosa.


6º Arremate com o seu nó de acabamento preferido, aplique uma gotícula de cola e corte o excesso do Poly Yarn, cuidando para que não ultrapasse a metade do comprimento da haste. Aplique verniz na cabeça da mosca.



Como trabalhar a isca:

Em se tratando de imitações de larvas e pupas, principalmente em numeração pequena (menores que #16), as estratégias mais comuns de apresentação e pesca são: arremessar rio acima deixando que a mosca desça ao sabor da correnteza deriva morta (dead drift), podendo-se fazer uso ou não de um indicador de fisgada; arremessar a mosca e recuperá-la através de recolhimentos curtos, imprimindo à mosca curtos deslocamentos em "pulsos"; arremessar a mosca e recuperá-la lentamente podendo em algumas situações deixá-la simplesmente parada. As larvas de mosquitos são encontradas com mais frequência em águas calmas/paradas (lagos e poços), normalmente ficam flutuando abaixo da superfície e por vez ou outra se deslocam através violentos movimentos do corpo, para imitar esse movimento a melhor estratégia é dar puxões bem curtos, repetidos a intervalos de tempo mais longos, puxe, conte até 10 e repita esse ciclo variando a velocidade (para mais e pra menos).

Lembre de Não Esquecer:


Apesar de em sua grande maioria os peixes insetívoros apresentarem comportamento alimentar tipicamente oportunista, consumindo o que lhes é apresentado, em algumas situações específicas pode haver seletividade quanto ao tamanho e cor. Nesse cenário, uma pequena variação na numeração do anzol ou na tonalidade da mosca pode ser a diferença entre o sucesso ou o fracasso de uma pescaria, assim a coleta de alguns indivíduos que habitam o local pode ajudar de sobremaneira na escolha do padrão mais apropriado visando aumentar as chances de fisgadas.

Grande Abraço

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A Primeira Encomenda A Gente Nunca Esquece

Quando comecei na modalidade pesca com mosca, há 3 anos atrás, não poderia nem imaginar que hoje estaria atando moscas pros amigos e que receberia encomendas. Minhas primeiras Woolly Buggers eram tão ruins que ainda não consegui entender como fui capaz de criar aqueles "monstrengos". Desde então, estudei (e estudo) muito, treinei (e treino) bastante, cada dia é um novo aprendizado, e ainda há um imenso caminho a percorrer, isso torna o fly ainda mais cativante e motivante.

Além da divulgação aqui no blog, tenho participado também de grupos e fóruns e apesar de não ter tanta experiência assim, procuro sempre ajudar repassando o que aprendo, acredito que dessa forma o "caminho das pedras" será menos penoso pros mosqueiros iniciantes. Certo dia desses, o amigo Kauan Pitella (de Jaguarão - RS), entrou em contato comigo, dizendo que apesar de já ser pescador esportivo, estava iniciando na pesca com mosca, pensei se tratar de alguma dúvida e me pus à disposição para ajudá-lo no que fosse necessário. Mas para minha surpresa, o motivo do contato era uma encomenda de moscas, a minha primeira. Depois de trocarmos algumas mensagens pra acertarmos os detalhes e de um tempo na mesa de atado (caprichando tanto quanto eu podia), minha primeira encomenda estava seguindo (inesquecível).

O conjunto (de cima para baixo, da esquerda para a direita): 
Bubble Diver, 
Gafanhotos GO FLY
Vanilla Ice Bugger, Autumn Splendor, 
Caddis Pupa, Copper John, Hare's Ear, Spider, 
CDC Caddis, Blood Worm, 
Missionary Wet e Matuka

Passados alguns dias de tempo ruim, muita chuva e frio, sem condições de pesca, orgulhoso e muitíssimo satisfeito recebo essas fotos do amigo Kauan registrando capturas nas moscas que havia me encomendado.

Saicanga capturada com gafanhoto GO FLY 

A "dentuça" não resistiu 

É verdadeiramente um prazer saber que de alguma forma, pude contribuir para momentos de alegria dos amigos mosqueiros, mesmo à distância e pude "pescar junto" com ele. Como diria o Kauan: "Vamos dá-lhe"!

Grande Abraço

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Metrologia do Atado

Proporcionalidade, razão de afundamento, perfil hidrodinâmico, são apenas alguns aspectos que precisam ser observados durante a montagem de moscas, eles estão muito mais ligados às características funcionais da isca e pouco contribuem para sua estética e beleza, apesar de serem parte indissociável da nobre "Arte do Atado".

Essas propriedades extremamente cartesianas, ligadas à física (uma ciência exata), a princípio podem não ser claramente visíveis quando olhamos pela primeira vez pra uma mosca que nos "pesca" pelo colorido, formato ou semelhança com o ser vivo que tenta imitar. Porém, são atributos igualmente importantes, uma vez que podem estabelecer de forma determinante o modo como a isca nada, afunda, sua silhoueta, enfim a "vida" que tentamos imprimir à mosca. 


Catgut nymph

Obviamente, quando vamos a um restaurante e pedimos uma iguaria gastronômica, não há como deixar de lado a frase do célebre poeta: "A beleza é fundamental". O primeiro contato que temos é visual, e um belo prato, colorido, muito bem apresentado, nos seduz logo de cara. Mas se essa "pintura comestível", linda de se ver é insossa, sem textura, todo o trabalho para a criação da "obra prima" se esvai em segundos. Sem querer menosprezar o poeta, ainda prefiro a máxima: "mosca feia, pega peixe". 

A metrologia do atado aqui proposta, na verdade trata-se da adequação das medidas dos materiais que mais comumente utilizamos na montagem das moscas. Escolher o fio de chumbo de bitola correta pra um determinado tamanho de anzol, é relativamente fácil na grande maioria das vezes, tanto que existem tabelas com essas relações facilmente encontradas nos livros de atado de moscas, blogs, fóruns, etc. É claro que se quizermos "sobrecarregar" uma ninfa com peso extra, para que esta afunde mais rapidamente em uma situação específica, essas sugestões tabeladas não valem, mas via de regra, os valores apresentados são os mais praticados. Assim, reuni algumas das tabelas que mais utilizo em meus atados e as apresento aqui como uma referência prática de consulta.


A tabela que mais utilizo é sem dúvidas a de fio de atado (thread). As unidades mais usadas pra classificar os fios de atado são Aught, na qual os zeros representam as espessuras dos fios (quanto mais zeros, mais fino será o fio), assim um fio 00000 ou 6/0 é mais fino que um fio 000 ou 3/0; e a Denier um padrão baseado no peso em gramas de 9.000 metros de fio, neste sistema, números maiores indicam fios mais grossos, assim um fio 210 denier é mais grosso que um fio 140 denier.


Outra tabela que consulto muito é a de bead heads. Sempre fico na dúvida sobre que tamanho é mais adequado para o anzol que pretendo usar. Mais uma vez, devo lembrar que essa é apenas uma referência e que em situações nas quais se deseja imprimir um comportamento específico à mosca, esses valores podem ser alterados.


Da mesma forma, a tabela de fio de chumbo se aplica quando deseja-se adequar a espessura do fio à espessura do arame do anzol, visando um corpo de mosca mais harmônico. Dado que o lastro usado na mosca pode ser modificado aplicando-se mais ou menos voltas deste fio à haste do anzol, as relações de correspondência dessa tabela, objetivam mais propriamente a proporção das bitolas fio x haste.


Ainda referente ao lastro, a tabela de olhos de halteres de chumbo também serve apenas de referência para o tamanho do anzol. Dependendo da quantidade e do tipo de material que será atado à mosca, pesos maiores ou menores podem ser necessários para que a isca nade de forma equilibrada.


Outro elemento que está muito presente em uma grande quantidade de receitas de atado é o fio de cobre. Usado para revestir a haste, para reforçar a fixação de um material ou mesmo pra segmentar abdômens, essa tabela é uma mão na roda na hora de escolher qual fio usar em função do tamanho do anzol.


Usada em menor escala, mas igualmente necessária é a tabela de cone heads. Mais uma vez, aqui aplica-se apenas uma relação de tamanho do cone versus espessura do arame da haste, tanto para seu travamento no olho do anzol, quanto para o efeito esperado no atado.


Essa tabela tem a mesma função da anterior, apenas adequar o tamanho dos olhos de plástico/monofilamento ao tamanho do anzol.


O chenille é mais um elemento que faz parte de muitas receitas de atado. Na grande maioria das vezes, apenas revestindo a haste do anzol pra formar o corpo da mosca. As relações apresentadas nesta tabela tomam como premissa anzóis com abertura parão, focando pricipalmente a proporcionalidade entre espessura e comprimento.


Finalmente, ainda visando garantir a proporcionalidade dos corpos das moscas, a tabela de vinyl rib, elemento muito utilizado tanto pra ninfas, quanto pra streamers.

Espero que essas tabelas sirvam de referência e sugestão para muitos mosqueiros e que ajudem na montagem de moscas equilibradas, proporcionais e principalmente funcionais.

Grande Abraço